São Paulo, 06 (AE) - Há um mistério Murnau. Transparece nas obras-primas desse cineasta morto precocemente, que legou ao cinema momentos admiráveis. Murnau viveu envolto nas brumas da sua homossexualidade, era atraído por temas fantásticos, mas o mistério maior era o de sua criatividade. Seus admiradores dizem que ele não deixava margem nenhuma ao acaso na realização de seus filmes. Mas artistas que trabalhavam com ele destacavam a sua incrível capacidade de adaptar-se às circunstâncias no set. As afirmações tão contraditórias na verdade iluminam o mesmo método, que consiste em captar a natureza dentro do artifício.
O gênio de Murnau projeta sua sombra sobre a 23.ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O organizador do evento, Leon Cakoff, selecionou o "Fausto" de Murnau, de 1926, para a abertura. Será na quarta-feira, dia 13, na novíssima Sala São Paulo (antiga Estação Júlio Prestes). O filme, mudo, será exibido na versão restaurada pela Cinemateca de Madri. Uma atração especial é a partitura especialmente composta pelo maestro alemão Bernd Schulcheis, que estará em São Paulo. Será a estréia mundial da trilha de "Fausto".
No dia seguinte e até o dia 28, desenrola-se a maratona nas salas do Espaço Unibanco, Vitrine, Cinearte, Cinesesc e Centro Cultural São Paulo, além da Sala Cinemateca e dos auditórios do Masp e do MIS. Serão projetados mais de cem filmes. Com as retrospectivas do melodrama mexicano e do cineasta japonês Seijun Suzuki (que é esperado em São Paulo), chegarão a 150. É menos do que em anos anteriores, mas Cakoff assegura: está trazendo o que de melhor garimpou nos mais importantes festivais internacionais do ano. Importante: o cartaz da 23.ª Mostra ostenta um desenho do cineasta José Zaragoza (de Até Que a Vida nos Separe). Destaques - Só para dar água na boca, nesse verdadeiro banquete de cinéfilos: virão os filmes de Zhang Yimou e Abbas Kiarostami premiados no recente Festival de Veneza (O Vento nos Levará e Nenhum a Menos), o de Gianni Amelio premiado em Veneza no ano passado (Assim Nós Rimos), o de Bruno Dumont premiado em Cannes este ano (A Humanidade), o novo Takeshi Kitano (Verão Feliz), que tanta discussão provocou, também em Cannes, em maio. Isso é só um aperitivo. Entre os nacionais, serão projetados "O Primeiro Dia", de Walter Salles, e "Oriundi", de Ricardo Bravo.
Durante 15 dias, o evento transformará São Paulo no centro do cinema mundial. Como sempre, Cakoff pede ao público que preste atenção nos diretores pouco conhecidos. "Não façam suas apostas só nos consagrados", diz. Nos últimos 22 anos, a mostra revelou no Brasil alguns dos diretores mais importantes do mundo, desde um jovem, como Quentin Tarantino, até um mestre nonagenário, como Manoel de Oliveira. Ingressos - A credencial que dá ingresso a todas as sessões custará R$ 150,00. Estará à venda a partir de sábado, às 10 horas, no quiosque da mostra montado no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. A venda de ingressos será toda informatizada. As pessoas poderão retirar suas entradas até três dias antes da sessão. Tudo para facilitar a vida dos cinéfilos que, todos os anos, correm de um local de exibição para outro com o catálogo da mostra na mão, tentando compatibilizar horários. Júri - Como se trata de um evento competitivo para novos diretores, já está escolhido o júri que vai atribuir o troféu Bandeira Paulista. Será formado pelos diretores Hector Babenco (de Pixote, a Lei do mais Fraco), Peter Cohen (de Arquitetura da Destruição) e Marion H„nsel (de Entre o Inferno e o Profundo Mar Azul), pelo produtor Cedomir Kolar (de Antes da Chuva) e pelos diretores dos festivais de Telluride, nos Estados Unidos, Tom Luddy, e de Locarno, na Suíça, Marco Muller.
Orçado em R$ 2,1 milhões, o evento terá como principal patrocinadora a Petrobrás. Os co-patrocinadores são a Blockbuster e o cigarro Luke Strike. E não se pode esquecer o apoio do Sesc, das secretarias de Cultura do Estado e do município, do Eurochannel, do Crowne Plaza e da Subtitling Online. "Um evento desse porte não se realiza sem o aporte institucional e financeiro de todas essas empresas e entidades"
diz Cakoff.

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