Cleide Cavalcannte
Agência Estado
De São Paulo
Inverno de 1923. Otávio Guinle - membro de uma das famílias mais ricas do País - abria as portas do Copacabana Palace para o Rio de Janeiro, cujo estilo impressionante imediatamente tornou-se endereço predileto de viajantes do Brasil e do exterior. Claro, a burguesia também descobriu no lugar uma referência social. A história dos 76 anos do Copacabana Palace e muitas outras histórias de bastidores (encontros secretos, amores proibidos e aventuras de personalidades famosas) são contadas pelo jornalista Ricardo Boechat, colunista de ‘‘O Globo’’, no livro Copacabana Palace - Um Hotel e Sua História’’, da Editora DBA-Melhoramentos.
Construído por sugestão do presidente Epitácio Pessoa, o hotel foi projetado pelo francês Joseph Gire, que inspirou-se no estilo dos hotéis Negresco de Nice e no Carlton de Cannes. Cercado por cajueiros e pitangueiras, o próprio nome do hotel já traduzia sua importância para os moradores da região - era um verdadeiro palácio principalmente para os pescadores que ainda costumavam aportar com suas simples canoas na praia.
Mas o destino de Copacabana (Copa Caguana, que em quíchua, idioma americano ainda hoje falado no Peru, significa ‘‘lugar luminoso’’) era mesmo o de enfeitiçar o País. A efervescência urbana foi tomando corpo e o bairro crescendo e virando moda, quase simultaneamente. Fase em que o requinte oferecido pelo Copa (como o hotel é carinhosamente chamado pelos cariocas e admiradores) começava a atrair a elite européia.
Sem dúvida, um dos fatores que contribuíram para isso foi o primoroso trabalho da equipe, contratada a peso de ouro. ‘‘Para Otávio Guinle o hotel não era apenas uma casa de hospedagem, mas um ambiente sofisticado de lazer e diversão. Assim, trouxe da Europa alguns dos melhores profissionais, entre eles, quase toda a equipe do chef Auguste Escoffier’’, destaca Boechat. A decoração ostentava basicamente artigos importados, muitos ainda podem ser vistos no hotel.
Segundo as regras estipuladas por Otávio Guinle, homens só podiam entrar no Copa de paletó e gravata. E a norma realmente não foi problema. Políticos, chefes de governo, estrelas do teatro e do cinema, reis e rainhas registraram seus nomes no Livro de Ouro do Copacabana Palace. Em 1925, está documentada a presença de Albert Einsten; pouco tempo depois quem assinava o livro era Santos Dumont, que após anos morando na França decidiu retornar ao Brasil - ele sofria de uma profunda depressão. A mesma doença de Carmem Miranda, quando hospedou-se lá por quatro meses.
E os anos passaram. Enquanto os estrangeiros se deslumbravam com o charme singular do Copa, o mundo descobria Copacabana, o bairro. E... também os amantes. Era no hotel que o presidente Washington Luís se encontrava secretamente com sua amante, e foi lá que ele levou dela um tiro.
Em 1938, o hotel vivia o auge, por isso decidiu-se inaugurar a primeira grande casa de espetáculos do Rio, o Golden Room. A estréia teve a presença de Maurice Chevalier e, nos anos seguintes, a casa recebeu nomes como Yves Montand, Lena Horne, Dionne Warwick, Josephine Baker, Ella Fitzgerald, Gilbert Bécaud, Marlene Dietrich, Lucho Gatica, Amália Rodrigues, Edith Piaf, Nat King Cole, Sammy Davis Jr., Charles Aznavour, Tony Bennett, Ray Charles, entre outros.
Porém, ninguém ‘‘cantou’’ tão bem o bairro como João de Barro e Altino Ribeiro em ‘‘Copacabana’’. Foi graças aos compositores que hoje Copacabana tem um ar meio feminino, inexplicável... Nascia por obra de dois cariocas a eterna ‘‘Princesinha do Mar’’.
Também Caymmi e tantos outros cantaram as delícias de Copacabana. Assim como as desfrutavam seus ilustres moradores, como Mário Lago, Sara Kubitschek, Magalhães Pinto, Márcio Souza, Yolanda Costa e Silva, Leonel Brizola, Alcione, Emilinha Borba, Ferreira Goulart, Carlos Lacerda, José Lins do Rego e Café Filho.
Embora por um curto período, Copacabana também hospedou em seu mais sofisticado recanto, o Copa, nomes de famosos como Orson Welles, Walt Disney, a princesa Ragnhild da Noruega, Ava Gardner, Tyrone Power, Jayne Mansfield, Rita Hayworth, Kirk Douglas, Nelson Rockefeller, Janis Joplin...
‘‘É um caso raro de pioneirismo’’, explica Ricardo Boechat. ‘‘Quem chegou primeiro foi o hotel, a cidade é que veio atrás.’’

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