Carlos Heitor Cony fecha a série publicada nos ‘‘Cadernos de Literatura Brasileira’’ enfocando escritores que fazem parte de uma espécie de academia marginal
Uma foto da Lagoa Rodrigo de Freitas iluminada, cercada por aquela paisagem insuperável que marca a geografia carioca, é imagem que fala por mil palavras. Certamente não palavras de Carlos Heitor Cony falando sobre a mesma Lagoa, sua paisagem preferida e recorrente. Mesmo que a bela fotografia de Eduardo Simões abra a seção ‘‘Geografia Pessoal’’ do recém-lançado ‘‘Cadernos de Literatura Brasileira’’ sobre o escritor, editado pelo Instituto Moreira Salles. Cony fecha a primeira dúzia de escritores da série dos ‘‘Cadernos’’, que têm a direção de Antonio Fernando De Franceschi, iniciada com João Cabral de Melo Neto, em março de 1996. A coleção representa uma espécie de academia marginal, sem fardão nem espadim, que consagra autores veteranos e novos mestres, de Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Lygia Fagundes Telles a Raduan Nassar e Ignácio de Loyola Brandão.
O ‘‘Caderno Cony’’ tem estrutura semelhante às dos outros, uma abertura, uma cronologia chamada ‘‘memória seletiva’’, depoimentos de amigos, uma entrevista longa, as fotos da ‘‘Geografia Pessoal’’, trechos de um inédito, alguns ensaios acadêmicos e o ‘‘Guia’’, bibliografia de e sobre o escritor. Mas, assim como Carlos Heitor Cony é um escritor único na dúzia dos ‘‘Cadernos’’, o volume ganha características peculiares deste autor que, aos 75 anos (completa 76 no dia 14), está em atividade plena, geral e irrestrita.
O Cony dizia o que queríamos dizer. Que o digam os seis capítulos do romance inédito ‘‘A Tarde da Tua Ausência’’, previsto para sair em abril pela editora do autor, a Companhia das Letras, que estão nas páginas do ‘‘Caderno’’. Ao contrário de algumas de suas obras recentes, sobretudo as de encomenda, que não chegam ao padrão habitual de Cony, este romance, pelo aperitivo fornecido, parece bem mais consistente e fluente, contando o que ele chama de ‘‘a história de uma família complicada no Rio de Janeiro, no final do século 20. Tão complicada que parece improvável. O mapa pessoal de Cony surge nas páginas do caderno, desde a célebre história da sua língua presa, da troca do g pelo d na palavra fogão, na consequente descoberta dos poderes da palavra escrita, até a sua presença como a consciência da resistência democrática no Brasil da alvorada do regime militar, com seu espaço no jornal carioca ‘‘Correio da Manh㒒. Seu abandono da ficção após a publicação de ‘‘Pilatos’’, em 1975, o regresso após 21 anos, ainda sem força total no ‘‘quase-romance’’ que publicou, ‘‘Quase Memória’’, em que o grande personagem é seu pai. E, sempre, pairando sobre tudo, as indagações filosóficas e religiosas que vêm do seu tempo de seminarista.
Ruy Castro abre a seção de depoimentos mostrando Cony nas redações em que trabalharam juntos e descreve, em cores vivas, embora necessariamente insuficientes, o que Cony representou na imprensa brasileira na época da ditadura militar. Há muita verdade no retrato do jornalista que se tornou uma voz isolada contra o regime autoritário. E na constatação que todo leitor faz, que os ‘‘seus protagonistas - homens secos, caladões e sensuais - são ‘‘ele’’, do seminarista de ‘‘Informação ao Crucificado’’ ao Paulo de ‘‘Pessach: a Travessia.’’ Ruy comenta: ‘‘É claro que não é nada disso. Cony é que vive como se fosse um personagem de si mesmo’’. Luís Fernando Verissimo emenda: ‘‘Ler o Cony no ‘‘Correio da Manh㒒 era, ao mesmo tempo, um ato de rebeldia seguro...O Cony dizia o que queríamos dizer. O Cony era a nossa barricada moral. Foi através do Cony que não ficamos quietos’’. Zuenir Ventura fala dos muitos Conys que existem e avisa: ‘‘Desconfiem do autoproclamado Cony pessimista e muito menos acreditem no Cony cínico. Ou melhor, acreditem, mas considerem que é uma atitude filosófica, moral, intelectual, uma visão do mundo que é desmentida a cada dia por sua prática de vida.’’ Sugere ainda que ‘‘gozador, ele deve se divertir com o efeito sobre os outros da imagem que criou de pessimista, mal-humorado e rabugento.’’ Quem o conhece melhor, sabe da sua generosidade e afabilidade.
Ele, comenta Verissimo, é um escritor de estilo direto e fácil, mas também cheio de evocações e segundos sentidos. No ensaio ‘‘O Caso Cony’’, o crítico e professor gaúcho Antonio Hohlfedt situa-o como ‘‘um escritor verdadeiramente profissional’’, que usa geralmente recursos memorialísticos para contar histórias da classe média urbana, no quadro da falência da família da busca da identidade e do sentimento de vazio dos narradores. Tudo isso se traduz, diz Hohlfeldt, dentro do conceito de que ‘‘a literatura é um modo de resistência’’.

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