Convite ao pessimismo
Em seu novo romance, 'Serotonina', Michel Houellebecq reflete sobre o desinteresse pelo mundo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
Em seu novo romance, 'Serotonina', Michel Houellebecq reflete sobre o desinteresse pelo mundo
Marcos Losnak 
Numa época que precisa de otimismo, a melhor maneira de seguir vivendo é saborear o pessimismo. Essa parece ser a máxima de “Serotonina”, novo romance do escritor francês Michel Houellebecq.
Lançado pela editora Alfaguara, o livro narra a trajetória de Florent-Claude, um engenheiro agrônomo de 40 anos que perde a esperança no mundo e cai em depressão. O cinismo invade os olhos do personagem que começa a enxergar as evidentes contradições do mundo contemporâneo: “Os homens de modo geral não sabem viver, não tem qualquer familiaridade real com a vida, nunca se sentem inteiramente à vontade, estão sempre correndo atrás de diferentes projetos, mais ou menos ambiciosos ou mais ou menos grandiosos, e claro que na maioria das vezes fracassam e chegam à conclusão de que teria sido melhor, pura e simplesmente, viver, mas em geral já é tarde demais.”
Para tentar remediar a desesperança, passa a tomar um medicamento antidepressivo que produz serotonina artificialmente. O drama é que o remédio inibe a produção de testosterona provocando queda de libido e impotência. E assim a experiência do amor é eliminada de seu cotidiano.
Florent-Claude, num impulso, abandona o emprego, abandona a casa, abandona a esposa, e começa a vagar por hotéis e distritos. Além de ler as coisas a partir das lentes críticas do pessimismo, começa a repassar na memória todas as mulheres que amou no passado.

Repassando suas paixões, chega a conclusões ferinas: “Não é bom que os amantes falem a mesma língua, não é bom que possam se entender de verdade, que consigam se comunicar verbalmente, porque a vocação da palavra não é criar amor, mas sim divisão e ódio, a palavra separa à medida que é formulada, enquanto um balbucio amoroso sem forma, semilinguístico, falar com sua mulher ou com seu homem como se fala com seu cachorro, cria as condições de um amor incondicional e duradouro.”
Para o personagem o mundo não possui mais sentido, considera que o tecido social, político e econômico foi para o abismo: “Decididamente não se pode fazer nada em relação à vida das pessoas, nem a amizade, nem a compaixão, nem a psicologia, nem a compreensão das situações têm a menor nulidade, as pessoas constroem sozinhas a engrenagem da própria desgraça, dão corda até o fim e depois a engrenagem continua rodando, inevitavelmente, com algumas falhas, algumas fraquezas quando a doença interfere, mas continua rodando até o fim, até o último segundo.”
A falta de perspectiva transforma Florent-Claude num sujeito diante da falência dos ideais: “A vida adulta, a vida profissional, não passa de um lento e progressivo estancamento, com certeza é por isso que as amizades da juventude, aquelas que fazemos durante os anos de estudante e que no fundo são as únicas verdadeiras, nunca sobrevivem à entrada na maturidade, nós sempre evitamos rever os amigos da juventude para não ter que encarar testemunhas das nossas esperanças frustradas nem a evidência do nosso próprio fracasso.”
Nascido em 1958, Michel Houellebecq é uma dos grandes escritores da literatura francesa contemporânea. Também um dos mais polêmicos. É autor de “Submissão” (Alfaguara, 2015), “O Mapa e o Território” (Record, 2012), “Plataforma” (Record, 2002) e “Partículas Elementares” (Sulina,1998), entre outros.

Serviço:
“Serotonina”
Autor – Michel Houellebecq
Editora - Alfaguara
Tradução – Paulina Wacht e Ari Roitman
Páginas – 340
Quanto – R$ 59,90


