São Paulo, 31 (AE) - O convite recebido pelo crítico carioca Paulo Herkenhoff para integrar o núcleo de curadoria de pintura e escultura do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) não é apenas um reconhecimento de suas qualidades profissionais e do cuidadoso trabalho que fez como curador da 24.ª Bienal de São Paulo. É também consequência da recente atenção que a arte latino-americana vem despertando nos grandes centros hegemônicos e do processo de auto-avaliação pelo qual o museu está passando recentemente.
Nos últimos tempos a instituição vem buscando suprir uma lacuna, reforçando a presença latino-americana em seu acervo. Um exemplo desse esforço - que já pode ser atribuído à entrada de Herkenhoff - é a compra que o museu está fazendo de três desenhos de Leonilson (em contrapartida, o Projeto Leonilson doará dois outros trabalhos do artista à instituição).
Apesar de não existir nenhum tipo de subdivisão regional no projeto de curadoria do MoMA, é evidente que esse convite demonstra um interesse "em descobrir este continente que foi esquecido", avalia Herkenhoff. "A qualidade e a diversidade da nossa produção está exigindo uma nova atitude por parte das instituições do norte, um tratamento igual, sem paternalismo", afirma ele, confessando ter um olhar extremamente otimista sobre a arte e o pensamento crítico brasileiro.
"Interessa-me muito a questão de como o Brasil se formula como uma cultura de resistência, um projeto de constituição do espaço social da arte", diz. Seu olhar se volta quase que naturalmente para a efervescente década de 60, que além de muito rica tem uma relação com sua história pessoal.
"É o máximo o Brasil ter um profissional que vai para o principal museu do mundo", comemora Ivo Mesquita, o sucessor de Herkenhoff na curadoria da Bienal de São Paulo. Curiosamente, Mesquita está chegando de temporada de quase dez anos de trabalho no Canadá e nos EUA. Liderança cultural dos norte-americanos? Inevitavelmente. "A hegemonia americana obviamente corresponde ao fato de o país ser o centro da economia mundial", diz Herkenhoff. No entanto, ele faz questão de lembrar que outros países, como a Espanha, estão fazendo questão de abrir mais espaço à arte contemporânea latino-americana.
Como curador-adjunto (o que lhe dá mais liberdade e status que o título de curador-assistente) ele terá como primeiras tarefas participar das reuniões da comissão de acervo e da organização de um enorme ciclo de exposições MoMA 2000. A gestão da coleção também faz parte de suas atribuições, mas não existe nenhum tipo de meta ou dotação orçamentária prévia. "Todo mundo tem de construir suas possibilidades", conta. Herkenhoff esteve em Nova York por 15 dias no mês passado e deverá partir definitivamente para assumir o novo posto em setembro. "Estou só aguardando a autorização da imigração oficial", conta. Seu contrato inicial é de três anos, podendo ser renovado.
O ciclo MoMA 2000 terá início em outubro e, durante um ano e oito meses, realizará um mergulho na arte do século 20 a partir do acervo constituído pelo museu desde sua fundação, em 1929. "Trata-se de uma avaliação da história da arte, qual foi o olhar da instituição sobre o mundo e que, sem dúvida, esculpiu muito a visão da crítica nesse período", resume. É como se essa visão introspectiva, voltando-se para dentro da coleção, desse ao museu a chance de se dar conta do que foi deixado de fora. Outra grande obra, que promete abalar as estruturas do MoMA, é a reforma física do prédio, que será iniciada em breve.

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