Conversa para muitos carnavais
Conversa para muitos carnavais Jota De Londrina Carnaval e imprensa dá samba? Claro que dá. Parceria harmoniosa. Para mim, nascida na noite jornalista e sambista têm uma tradição de boêmia. A intimidade entre imprensa e samba é fruto do Rio de Janeiro, berço do samba e capital da República até o final da década de 50. O extrovertido carioca realçou nos jornais depois no rádio e finalmente na TV a atenção especial que dá às histórias humanas, o zelo com a convivência. Carnaval é um tema precioso; atrai gente, puxa a atenção. E imprensa vive disso. Sambista também. Daí a simpatia mútua. Sambista em redação é rei. Entra sem pedir licença. Esta é uma antiga lei da imprensa. O Brasil teve até uma imprensa carnavalesca, com jornais dedicados exclusivamente ao Carnaval. Mais de 200 títulos atravessaram mais de um século sendo editados aqui e ali. Foi de 1833 a 1956, no mínimo. Mas esta incrível modalidade só foi descoberta recentemente pelo crítico e historiador José Ramos Tinhorão, gabaritado estudioso da cultura brasileira. Em 1833 botaram na rua o primeiro jornal carnavalesco, editado certamente por alguém ruim da cabeça e doente do pé. De nome delicioso, Limão de Cheiro, nasceu para condenar a festa. Chamava a atenção das autoridades contra o Carnaval, recém-nascido. Felizmente ninguém foi atrás do bloco do Limão de Cheiro. Seguiram-se títulos como O Azucrin, Farpas Fenianas. O Echo dos Tagarelas, Rabo Escondido Com o Gato de Fora, todos a favor da folia. Essas maravilhas podem ser vistas no livro A Imprensa Carnavalesca no Brasil, lançado por Tinhorão este mês. O Carnaval sempre foi também muito útil para o aumento de tiragens das publicações. O Cruzeiro, revista semanal mais lida nas décadas de 50 e 60 tirava edições especiais nos dias de Carnaval. Com o tempo também foi tirando mais e mais as roupas das foliãs que preenchiam as páginas da revista. Logo depois a Manchete ocupou o espaço de O Cruzeiro, sempre trazendo Carnaval de cabo a rabo. Mas puxando o tema mais para o nosso tempo, cabe lembrar a engraçada participação do semanário O Pasquim, editado de 1969 a 1992. Para o estilo do jornal, Carnaval era sopa no mel. Tempos turvos ou verdes-oliva o Carnaval vinha bem para aliviar o sufoco. O Pasquim era praticamente um órgão divulgador do bloco carnavalesco Banda de Ipanema. Também há um entra-e-sai entre imprensa e Carnaval. Profissionais que faziam bonito tanto na máquina de escrever (tempos pré-computador, crianças) quanto nas quadras das escolas. Entre tantos bambas nos dois assuntos temos um orgulho máximo o jornalista Nássara, já falecido, autor de Ala-lá-ô, música das mais tocadas nos salões e fora deles. E por aí vai. Imprensa e samba é conversa para muitos carnavais. Jota é cartunista da Folha e um dos homenageados pelo samba-enredo.





