‘‘A Maçã de Eva’’, monólogo apresentado pela atriz Clarisse Abujamra, terça e quarta-feira, no Teatro Zaqueu de Melo, teve como proposta inicial uma palestra sobre o tema sexo. Apresentada de uma forma diversa do tradicional, a atriz se valeu dos infindáveis recursos que o teatro proporciona para divertir uma platéia com todos os canais abertos. Um preâmbulo de cunho político, completamente dispensável, abriu o discurso sobre sexo. O tema por si só atrai multidões.
O lado voyeur do espectador foi potencializado, logo após iniciar a conversa. O tom confessional do espetáculo permite uma empatia imediata com o público. Afinal, todos querem ouvir os segredos de alcova, conhecer o lado obscuro dos outros. E, de quebra, se vier uma simulação de sexo, com gemidinhos saltitantes, melhor ainda.
Nesse monólogo, Clarisse Abujamra se vale de uma mulher tímida, reprimida sexualmente, para as viagens ao terreno do prazer. Os velhos truques do ofício foram colocados em cena: uma personagem sofredora e carismática, colocada em situações patéticas, dispara frases de efeito e engraçadinhas. A atriz deu preferência às expressões melodramáticas para arrancar risos da platéia, para valorizar o discurso convencional.
O texto, uma ejaculação precoce literária, somado à direção burocrática de Ivan Feijó, aprisionou o discurso engraçadinho e ordinário num cenário que desvalorizava ainda mais a encenação. Ao apresentá-lo como palestra, em muitos momentos, não passou de uma conversa de comadre. Nos 18 personagens que povoaram o palco do Zaqueu de Melo, Clarisse Abujamra se valeu de interpretação estereotipada, com certa dose de exagero, ao interpretar o filho e a amiga, por exemplo.
Mesmo sendo escrito por uma trinca de dramaturgos italianos (Franca Rame, Dario Fo e Jacopo Fo), a superficilidade imperou na exploração do tema de interesse geral e de complexidade infinita. Um nome no programa da peça de uma figura laureada pelo Prêmio Nobel de Literatura, Dario Fo, não se traduz em sinônimo de dramaturgia potente. Brincando em cima do tema ‘‘sexo’’, o escritor italiano não se mostrou suficientemente à altura de tamanha distinção do mundo literário. Se na Itália, o texto causou polêmica, por aqui ‘‘A Maçã de Eva’’ não estimula nem um cigarro após o espetáculo.

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