Conversa com a Yoko comedida
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de novembro de 2007
Camila Molina<br> Agência Estado 
São Paulo é uma cidade que, até agora, Yoko Ono conhece apenas pelo vidro dos carros que a levam para seus compromissos. Mas, mesmo assim, ela, com seus 74 anos, sente a vibração da megalópole, quer conhecê-la melhor. Pela primeira vez na capital paulista (em 1998 Yoko esteve em Brasília, onde realizou uma exposição, também apresentada em Salvador), estará focada na montagem de sua atual mostra retrospectiva e nos ensaios para a performance ''Uma Noite com Yoko'', no Teatro Municipal (com projeções, música e sua atuação no palco). A seguir, Yoko comenta sua arte e suas impressões:
Em 1998, sua exposição em Brasília tinha como título ''Wish Tree for Brazil - Árvore dos sonhos para o Brasil''. Agora, um nova árvore dos sonhos será colocada bem na entrada do Centro Cultural Banco do Brasil para os visitantes deixarem lá escritos em pedaços de papel seus desejos. Aqueles sonhos de dez anos atrás se tornaram realidade?
YOKO ONO - Sim, sonhos sempre se tornam realidade, simplesmente, porque acontece, porque sim. Coloco a árvore dos sonhos em todos os países onde faço exposições. Os desejos colocados antes são guardados e outros serão agora colocados. Depois, todos são reunidos e levados para a Islândia para integrarem o ''Imagine Peace Tower'', meu trabalho instalado lá.
Quais as mudanças que a sra. vê no Brasil de quase uma década atrás e agora?
Gosto de São Paulo, talvez, porque ela vibra. Brasília é muito bonita, futurista, fantástica, mas mais quieta. E São Paulo é muito viva, amo isso. Gosto dos prédios antigos daqui também.
A sra. acredita que este seja um momento de apatia, de indiferença? Momento em que as pessoas não têm ações políticas, poder político? Seus trabalhos de arte pedem a participação do público...
Isso não acontece somente no Brasil, acontece em todo o mundo. As pessoas estão confusas e com medo. E nós temos que deixar de lado o medo.
O curador Gunnar Kvaran disse que seu único pedido foi que não ficassem de fora da exposição em São Paulo os ''Blood Pieces - Objetos de Sangue''. Por quê?
Gunnar fez a curadoria da exposição em Oslo e todas as outras obras estiveram lá. Quis apenas que fossem mostrados os trabalhos de sangue porque eles tratam das mulheres, de como elas sofrem. Mas pensei, em um momento, que os homens sofrem também e por isso quis colocar uma camisa masculina no trabalho. Quero mostrar essa obra porque ela enfatiza o sofrimento das mulheres, porque isso não é falado com frequência. Sempre se fala dos soldados que foram mortos, etc., mas e sobre as mulheres que sofrem em silêncio?
Há muito de feminismo em seus trabalhos, especialmente na obra Vertical Memory. Acredita que há um equilíbrio entre a questão do feminino e do masculino em suas obras?
Muitos dos meus trabalhos falam do masculino também. Não é algo fechado.


