Com a crise de velhos modelos do setor fonográfico e a queda nas vendas de CDs (só no Brasil, a diminuição foi de 9,32% em vendas por unidades entre 2008 e 2009, segundo dados da Associação Brasileira de Produtores de Disco - ABPD), as gravadoras tiveram de adotar uma postura mais empresarial. Para elas, apenas gravar e lançar discos passou a não fazer mais sentido. A saída foi estender as parcerias com seus artistas, incluindo participação nos cachês de shows (principal fonte de renda dos músicos) e merchandising.
Em muitas companhias, está em voga o contrato chamado 360 graus, que abarca diversas ações e fontes de receita, sobretudo com novos contratados. As gravadoras entram em acordo com os empresários e turbinam divulgação e investimento nos músicos. Alguns não gostam da expressão 360 graus, como João Augusto, dono da gravadora Deck, por passar ''a impressão de alguma coisa que fica dando voltas, sem sair do lugar''. ''Criamos uma nova empresa, a Tambor Entretenimento, com objetivo específico de agenciar alguns dos nossos artistas, especialmente aqueles que estão começando'', explica João. ''Resultados como os que temos conseguido com Roberta Campos, Jullie e bandas do selo Vigilante indicam que o caminho está certo.''
Outros aderem, sem problemas, à mesma expressão. ''Como gravadora, sempre fomos aliados para que os shows ocorressem, mas não recebíamos nada por isso. Hoje, quando investimos em novos talentos, precisamos recuperar em várias áreas, inclusive em shows'', observa Marcelo Castello Branco, presidente da EMI Music Brasil e América Latina. ''Um artista com carreira já consolidada não precisa aderir a esse contrato.'' Segundo ele, o retorno financeiro dessas outras ações para a gravadora gira em torno de 10% a 40%, dependendo do nível de trabalho e do comprometimento da empresa.
''Como a queda das vendas no mercado chegou a cerca de 80% ao longo dos anos, esse modelo começou a crescer'', constata José Eboli, presidente da Universal Music no Brasil, que tem um departamento chamado New Business Development (NBD), que explora todas as possibilidades fonográficas.
Em alta na Universal, o grupo Parangolé viu seu hit chiclete ''Rebolation'' ganhar versões em campanhas publicitárias. E a gravadora teve sua parcela de participação no pagamento pelos direitos autorais. ''É uma boa oportunidade de negócio'', observa Eboli. ''Ainda representa pouco na nossa receita, mas está em crescimento. Hoje, 75% do nosso faturamento ainda vem da venda física e 25%, das demais áreas'', completa.
Há nomes consagrados, como Paulinho da Viola, que, por opção, entregam o gerenciamento da carreira nas mãos da gravadora (Sony Music). No caso dos novos artistas, quase sempre já entram assinando por serviço completo. Foi assim com a cantora e compositora Ana CaÀas. ''Eles fazem tudo para mim. Antes, eu cantava na noite, nunca tive ninguém para me ajudar. Ia atrás de shows, chamava os músicos e, quando tomava calote, tinha de pagá-los do próprio bolso. Vivia com dívida'', lembra Ana. ''Foi uma surpresa quando eles se interessaram pelo meu disco 'Amor e Caos'.''
Para Afonso Carvalho, empresário dos cantores Diogo Nogueira e Diego Moraes, ambos da EMI, é natural que essas mudanças ocorram no mercado. ''O tripé formado por gravadora, empresário e artista sempre foi importante. Com investimento e comprometimento, não vejo problema nenhum'', declara. Segundo ele, foi esse comprometimento da gravadora que alavancou o trabalho de Diogo Nogueira e dá mostras de fazer o mesmo com Diego Moraes, um dos destaques do programa ''Ídolos'' (Record) no ano passado.

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