Contrastes urbanos
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Tem novidade no reino da mistura. A cantora mineira Patrícia Ahmaral estréia com o disco independente Ah!, produzido por Zeca Baleiro. Como todo primeiro lançamento, a intérprete faz um panorama dos anos de estrada incluindo, no mesmo repertório, músicas inéditas e roupagens de temas extraídos da memória. O resultado é um ecletismo que traduz os degraus percorridos no desenvolvimento como cantora profissional.
Se Ah! não se limita a uma direção, mostra traços de linearidade ao aliar estéticas predominantemente urbanas à música pop. Esta é a linha mestra do disco, que se impõe até a temas brejeiros como Beijinho Doce (Nhô Pai), ou de boêmia de fim de noite, como A Volta do Boêmio (Adelino Moreira). A referência ao meio urbano esbarra em alguns malditos, com Sérgio Sampaio e Edvaldo Santana.
Ah! resume os caminhos trilhados entre os sete anos que separam o primeiro show de Patrícia Ahmaral e o disco. Isso vem da minha história, do que eu ouvia, é minha bagagem de vida. O primeiro CD refletiu tudo isso, a vontade de expressar um resumo do que se viveu até ali, é natural, comenta a cantora.
A urbanidade dos arranjos acolhe e molda uma série de ritmos, e mostra uma divisão clara entre temas inéditos e releituras no caso de Patrícia Ahmaral o termo se encaixa, pois a reinterpretação escapa ao mero cover.
Eu fiquei muito satisfeita por ter conseguido fazer o CD da forma que eu fiz, com músicos legais. É um trabalho sincero, que me relata. Se isso é ecletismo, é isso que eu sou. Os fatos positivos e negativos fazem parte de mim, revela.
A somatória pop com contornos urbanos é proposital: É uma obsessão, nasci em Belo Horizonte, sou bem urbana, acho que esse convívio com a cidade põe à prova toda sua capacidade de conseguir sobreviver. É complicado, porque estou em um profissão romântica dentro desta confusão.
O disco abre com Máquina de Escrever (Luís Capucho/Mathilda Kóvak), balada com programação eletrônica de Sacha Amback e violão de 12 cordas de Tuco Marcondes. Em seguida vem Durango Kid (Edvaldo Santana/Ademir Assumpção), com sotaque blues/rock.
Woodoo Child (Jimi Hendrix) inspirou Voduzinho (Zeca Baleiro) e Beijinho Doce (Nhô Pai) virou um blues acústico, com direito a slide. É também o blues que baliza A Volta do Boêmio (Adelino Moreira) versão que deu certo e ganhou um leve acento flamenco, mantendo o clima de botequim. Eu Quero É Botar meu Bloco na Rua ganhou guitarras distorcidas e, mais uma vez, o sotaque mouro aparece em rápidos fraseados do bandolim de Celso Perinni. O CD fecha com Fala (João Ricardo/Luli), com participação especial de Maurício Pereira e o piano de Daniel Szafran.
Colocados na balança, os aspectos positivos pesam mais que os negativos. Entre os acertos, está a capacidade de reconstrução de arranjos que há décadas povoam nossos ouvidos. Patrícia Ahmaral tem timbre vocal definido e sua interpretação, contida e linear, poda exibicionismos.
Por outro lado, o leque excessivamente aberto de rumos sugeridos pode funcionar bem em shows, mas complica na hora de compor a unidade de um disco são arestas que se aparam com outras experiências de gravação. No mais, Ah! escapa da água que inunda os lançamentos produzidos pelo universo pop. O disco ainda não tem distribuição nacional, mas pode ser encomendado pelo telefone (31) 9976-6304 com Eloísa.





