Contrastes no Vale da Morte
Assim que acabam as montanhas da Serra Nevada, o verde úmido e vivo das folhas das sequóias abre espaço para uma paisagem cada vez mais árida e plana. O sol quente e a aridez do cenário causam efeitos no horizonte, deixam a estrada enevoada e sugerem alucinações no fim das intermináveis retas. Estamos entrando no Parque Nacional do Death Valley (Vale da Morte), em pleno coração do Deserto de Mojave, um dos lugares mais quentes e espetaculares da Terra.
A visão é ao mesmo tempo mágica e desoladora. E a sensação é de estar pisando em outro planeta. O nome Death Valley é, na verdade, um exagero. Ele teve origem na saga de um grupo de 25 imigrantes que participava da Corrida do Ouro em 1849 e se perdeu ao tentar encontrar um atalho pelo deserto, rumo à costa dourada da Califórnia. Apenas um homem morreu na viagem, mas o nome sinistro permaneceu e criou fama.
Quem chega ali se surpreende com a variedade de cenários. Principalmente com o colorido das rochas, algumas com mais de 500 milhões de anos, que afloram do solo por todos os lados. Num ponto conhecido como Artists Palette (Paleta do Artista), parece que as pedras foram pintadas à mão, cada uma delas com uma cor diferente.
O Vale da Morte é também cheio de contrastes. Algumas montanhas que o cercam chegam a 3 mil metros de altitude. No fundo, porém, está o ponto mais baixo de todo o Ocidente: Badwater, uma pequena piscina natural de águas escuras, a 85 metros abaixo do nível do mar. É um dos lugares mais quentes do planeta. Em 1913, os termômetros apontaram 57ºC. Assim que o sol esquenta, a terra arde em Badwater.
Os poucos que se arriscam a sair do carro para passear na esburacada planície cristalizada de sal que forra o solo à sua volta logo compreendem porque o lugar ficou conhecido como Campo de Golfe do Diabo (Devils Golf Course). Tudo lá lembra inferno, fogo e calor.
Há cerca de 10 mil anos, os primeiros habitantes da região, os índios panamints, já chamavam o Death Valley de Tomesha, Terra do Fogo. Não é à toa que vários pontos turísticos receberam nomes como Dantes View inspirado no Inferno de Dante , um belvedere a 1.650 metros de altitude de onde se descortina quase toda a extensão do parque. Um visual que fica ainda mais impressionante durante o amanhecer.
É justamente com a luz da manhã, quando o sol está baixo, que é possível conhecer mais intimamente o deserto. E nada melhor do que uma caminhada para sentir na própria pele o que é fazer parte deste habitat. Lá existem dezenas de trilhas de diferentes níveis de dificuldade e duração. Uma das mais famosas é a do Golden Canyon, que atravessa montanhas douradas e labirínticas em duas horas a pé até um mirante. De lá, se avista o Zabriskie Point, um cenário de ares lunares celebrizado pelo filme de mesmo nome, dirigido por Michelangelo Antonioni nos anos 60.
Após a caminhada, quando o sol esquenta de verdade, o melhor é conhecer os outros 49 pontos de interesse do parque, só que de carro, com direito a mapa e ar-condicionado. Para refrescar-se no Death Valley existem algumas opções. A primeira é seguir até a Darwin Fall, uma pequenina queda dágua que surge como miragem no deserto.
A segunda, mais viável, é relaxar em Furnacee Creek, o oásis-vilarejo decorado ao melhor estilo faroeste, ponto de encontro de estradeiros que cruzam a América em motor homes e motos possantes. Animadíssimas, estas lendárias figuras da estrada agitam dia e noite pelos restaurantes e bares de Furnacee. O lugar é a melhor parada para quem cruza os 225 quilômetros do parque e onde estão localizadas as lojinhas de souvenir, o centro de visitantes e um museu que conta um pouco da história local.
Existem vários tipos de hospedagem em Furnacee. A melhor de todas é sem dúvida o luxuoso Furnace Creek Inn. O hotel erguido ao longo de um oásis artificial permite aos hóspedes regalias inimagináveis num deserto, como jogar golfe à sombra de palmeiras ou ficar boiando numa piscina azul, vendo a vida seca lá fora.
Ao contrário do que possa parecer, há vida no deserto. Dezenas de pássaros, répteis e mamíferos escondem-se pela vegetação árida, rala e espinhosa composta por mais de 1.000 espécies de plantas que florescem no parque. O deserto tem suas delicadezas: flores minúsculas e selvagens que não se revelam a um primeiro olhar, mas que estão lá, como as rochas, insistindo em colorir o Death Valley.
À medida que o sol vai baixando, a temperatura cai rapidamente e os carros iniciam uma procissão rumo às dunas que cobrem boa parte do parque. É o momento de descer, tirar os calçados e andar pelas areias para assistir ao pôr-do-sol. A essa hora está fresco e as dunas não queimam os pés. Elas podem, no máximo, dar uma esquentadinha na sola. O que pode acabar sendo uma boa. Afinal, a próxima parada é justamente Las Vegas. E nada melhor que ter o pé quente para fazer uma fezinha nos cassinos da cidade luminosa.





