Contrastes musicais
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de abril de 2012
Rafael Ceribelli <br> <br> Reportagem Local 
Uma vitória musical conquistada através de muito talento e dedicação. Na próxima semana, o grupo londrinense Quarteto Descobertas irá se apresentar pela Europa, em uma turnê de 13 concertos que serão realizados nos palcos de quatro países do Velho Continente.
O sucesso internacional do Quarteto - que já está em sua quinta turnê européia - acontece por causa de sua alta qualidade técnica e criatividade. Inovando, os músicos executam releituras de canções brasileiras de autores como Francisco Mignone, Villa-Lobos e Camargo Guarnieri, conferindo uma roupagem erudita para canções populares, como ''Tico-Tico no Fubá'' e ''O Morro Não tem Vez''.
''Hoje, me sinto com uma oportunidade sensacional, que é a de levar o nome da cidade de Londrina para o mundo'', revela o violinista Roney Marczak, animado com as perspectivas e com a visibilidade que isso proporciona para sua Escola de Música, a Sol Maior. ''Este projeto passa a ser uma grande chance para as pessoas acreditarem que é possível'', desabafa. ''É possível fazer música de qualidade em um País em que a música não é devidamente valorizada'', complementa.
Formado há quatro anos por Roney Marczak (violino), Murilo Barbosa (piano), Filipe Barthem (baixo) e Duda de Souza (percusssão e bateria), o Quarteto é fruto de um trabalho social desenvolvido pela Sol Maior. Com acordes que atravessam fronteiras e gêneros musicais, através da renda de seus concertos o grupo arrecada fundos para o sustento de outras atividades voltadas para a educação musical em Londrina: a Orquestra de Crianças e a Orquestra de Jovens.
Mas o sucesso do projeto não abafa as críticas de Marczak à falta de incentivo. ''Temos a oportunidade de tocar música brasileira, lá fora, convidados pelo governo da Suíça. Aqui no Brasil, nós não temos incentivo e
nem espaço para tocar'', declara o violinista, inconformado com o cenário atual do mercado. ''Em virtude deste massacre sonoro, feito por apenas um estilo de música, as pessoas acreditam que o sertanejo que é a 'cara do Brasil''', reclama o músico, citando que nomes como Dorival Caymmi, Pixinguinha e Chico Buarque acabam esquecidos pelo povo.
MUDANDO O TOM - As diferenças culturais entre o Brasil e os países europeus têm um reflexo direto na formação musical e educacional. Presente no velho continente desde o século IX, o ensino institucionalizado da música e o hábito de escutar obras de compositores clássicos, como Beethoven e Mozart, é comum na Europa.
''Acho que o brasileiro é muito imediatista. Por isso que a música popular de hoje é tão pobre: ela tem duas estrofes e poucas frases. Você coloca uma música dessas para tocar na rádio 100 vezes por dia. Só isso basta. Todo mundo já está repetindo'', reflete o violinista Roney Marczak. ''Mas isso está mudando, tenho certeza. A música de verdade tem mensagem, conteúdo, poesia'', declara, esperançoso.
''Nos últimos 10, 15 anos, apareceram muitas oportunidades no País. Já existem escolas e universidades de música com alto nível de exigência e de excelência'', aponta a pianista Irina Ratcheva, em uma análise do cenário educacional no País. ''Para músico bom, sempre existe oportunidade. Para quem procura seguir carreira nessa área, a minha sugestão é: não desista'', aconselha, citando como exemplo boas instituições em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, além da criação de uma nova Orquestra em Curitiba. ''Apesar das crises culturais, o músico sempre tem a vontade de criar, de continuar, de não desistir'', afirma.
Infelizmente, em Londrina, o cenário para a educação musical não é animador. ''A cidade já deveria ter criado uma escola técnica municipal, voltada para a musicalização'', indica Irina, relembrando que a cidade de Maringá já possui uma organização deste tipo. ''Em Londrina, também falta uma formação em nível superior de 'Perfomance'. Na Universidade, nós temos somente um Departamento de Educação Musical, mas não possuímos um programa de profissionalização'', relembra.
NOVAS MELODIAS - Apesar da falta de institucionalização musical da cidade, o talento fala mais alto. ''Temos muito bons exemplos, e alguns projetos preciosos que trabalham com musicalização e são incentivados pela Secretaria de Cultura. Eles são ótimos, e nunca podem acabar'', declara a pianista Irina Ratcheva, relembrando das milhares de crianças introduzidas à música pelos acordes dos projetos sociais ''Um Canto em cada Canto'' e ''Musicando na Escola'', coordenados por Oleide Lelis e Regina Grossi, respectivamente.
Um desses exemplos é o do jovem Gustavo Henrique, 14, que há seis anos faz parte do projeto Musicando na Escola. ''Desde quando eu era bem pequeno, já me interessava por musica clássica, mas foi esse projeto que me introduziu neste mundo'', afirma o estudante, que hoje pratica o violino. ''A música já me ajudou muito. Desde que eu comecei a tocar, minha vida mudou completamente, em tudo'', completa.
''Ao contrário do que todos pensam, eu vejo que existe um grande público, principalmente entre os jovens brasileiros, interessado em música de qualidade. O que falta é espaço'', argumenta o violinista Roney Marczak. ''Isso vai mudar. O que é bom, sempre prevalece'', acredita.


