Contrastes humanos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de fevereiro de 2001
Celso Mattos De Londrina 
O grande cineasta Samuel Fuller disse certa vez que o cinema era a melhor forma de expressar a face da humanidade. Ao assistir Antes da Revolução, obra-prima de Bernardo Bertolucci, pode-se entender melhor o que Fuller quis dizer com essa frase. O filme, produzido em 1964, é o primeiro longa do diretor que se consagrou unindo literatura e cinema com extrema sensibilidade e inteligência.
Antes da Revolução, lançado em vídeo quase 40 anos depois de ser produzido, é um retrato comovente dos politizados anos 60, quando se acreditava o cinema como uma forma de arte que procurava interferir no seu tempo e espaço. No filme, Bertolucci, na época com 23 anos de idade, faz um balanço existencial e político da juventude dos anos 60: a luta do conformismo contra a disposição de dar um salto no escuro e abandonar aquilo que se tem como porto seguro. Esse é o dilema do personagem Fabrizio (Francesco Barilli), um poço de contradições facilmente reconhecível como alter ego do cineasta.
O protagonista perde um amigo afogado e se pergunta o que poderia ser feito para evitar a tragédia. Apaixona-se por uma tia tão jovem quanto ele e também perdida num mundo de aflição e neurose. Em Antes da Revolução pode-se perceber uma liberdade criativa característica da época: os cortes descontínuos, as experiências com lentes, as leituras de livros, discussões sobre cinema, gente que fala e anda, enquanto pensa e decide seu destino.
O mais interessante é que o primeiro longa de Bertolucci chegou às locadoras quase junto com Assédio, seu último trabalho, que trata de outro tema recorrente na obra de Bertolucci: o encontro de diferentes culturas. Antes da Revolução é, sobretudo, um filme de contrastes humanos. Lançamento da Cult Filmes. Duração: 115 minutos.
OUTROS LANÇAMENTOS
ReproduçãoComédia mostra o fascínio dos japoneses pela cultura norte-americana
Bem-vindo Mr. McDonald
À primeira vista, este longa de estréia do diretor japonês Kiki Mitani é uma comédia que faz uma homenagem à radionovela e ao mundo radiofônico. Mas, na verdade, Bem-Vindo Mr. McDonald é uma ácida crítica à americanização da cultura oriental e ao fascínio que os japoneses têm por tudo o que vem dos Estados Unidos. O filme satiriza também o egocentrismo e a vaidade que permeiam o meio artístico e o poder dos anunciantes sobre o conteúdo de uma obra artística.
O filme conta a história de uma dona de casa que vence um concurso de novelas radiofônicas. Famosos atores são contratados para interpretar a história que, devido a pressões internas e externas, começa a passar por grandes alterações. A heroína que no texto original trabalhava em um restaurante de comida japonesa, passa a ser uma advogada que mora em Nova York, tudo isso porque a atriz escalada para o papel sempre sonhou em interpretar uma cena de tribunal (mais americano impossível). Além disso, o nome da protagonista passa de Ritsuko para Mary Jane. O filme é dinâmico, criativo e muito divertido. Imperdível! Lançamento da Cult Filmes. Duração: 103 minutos.
ReproduçãoTudo em Jogo Duro é forçado e desnecessário
Jogo Duro
Depois do excelente Ronin, John Frankenheimer sofreu uma recaída e fez Jogo Duro, estrelado por Ben Affleck e Charlize Theron. Tudo no filme é forçado e desnecessário. Ben Affleck faz um ladrão de carro que sai da prisão e acaba sendo confundido com seu parceiro de cela. Ele passa a ser perseguido por uma quadrilha liderada por Gary Sinise, que o força a assaltar um cassino na véspera do Natal.
No meio desse auê, Charlize Theron vive a namorada virtual do ex-companheiro de prisão do mocinho, que o confunde com seu amado. Jogo Duro sofre de um mal incurável que vem atingido a maioria dos filmes de ação: viradas improváveis na trama a cada dez minutos, um recurso que já está cansando o espectador que começa a se sentir um idiota. Lançamento da Imagem Filmes. Duração: 105 minutos.


