É quase um milagre. Quando ninguém mais parecia lembrar-se de José Agrippino de Paula, sua obra volta a rondar as cabeças, desta vez impulsionada por uma inesperada celebração. A epopéia pop ‘‘PanAmérica’’ já circula nas livrarias provando que nem tudo na contracultura dos trópicos sucumbiu à cova das manifestações datadas.
O lançamento é da editora Papagaio, que anuncia publicar as obras completas do artista. ‘‘PanaAmérica’’ tornou-se uma referência cult dos anos 60. Continua desconcertando leitores tardios. Traz uma sucessão de peripécias vividas por um narrador improvável, cercado invariavelmente por celebridades hollywoodianas, musicais, políticas e esportivas.
Marilyn Monroe, John Wayne, Burt Lancaster, Humphrey Bogart, Brigidet Bardot, Marlon Brando, Cary Grant, Yul Brynner, Tony Curtis, Frank Sinatra, Che Guevara, Martin Luther King, Charles de Gaulle e Cassius Clay são alguns dos personagens que cruzam seu caminho enquanto ele roda um filme baseado na Bíblia Sagrada e participa de uma operação de guerrilha revolucionária.
Não há diálogos e nem parágrafos. Apenas blocos intercalados de fragmentos oníricos. Agrippino levou três anos para escrever ‘‘PanaAmérica’’. Publicou-o em 1967 pela extinta Tridente. Uma segunda edição sairia em 1988 pela Max Limonad. Um trecho do livro foi musicado por Caetano Veloso e Gilberto Gil na faixa ‘‘Eu e Ela Estávamos ali Encostados na Parede’’, do álbum Doces Bárbaros. Caetano o citaria ainda em Sampa (‘‘PanAméricas de Áfricas Utópicas / Do mundo do samba / mais possível novo Quilombo de Zumbi’’) e no livro de memórias Verdade Tropical no qual tece um longo comentário.
É o próprio cantor e compositor baiano quem assina o prefácio desta terceira edição. ‘‘Ainda hoje, quando o releio, ele guarda seu poder de impacto. É um caso único na literatura brasileira’’ – escreve. Agrippino, hoje com 63 anos, mora sozinho no Embu, cidade a 25km de São Paulo. Vive com os R$ 250,00 da aposentadoria da mãe. Nos anos 70, sofreu crises de esquizofrenia e teve de ser internado. Pouco antes, viajara pela África, Londres e Nova York.
Mas foi no final da década anterior que criou intensamente destacando-se não só como escritor, mas como diretor teatral (com os espetáculos ‘‘Rito do Amor Selvagem’’, ‘‘Tarzan Terceiro Mundo’’ e ‘‘Mustang Hibernado’’), produtor de musicais (com ‘‘Planeta dos Mutantes’’, protagonizado por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sergio Baptista) e cineasta (especialmente com o filme ‘‘Hitler no Terceiro Mundo’’, que incluía Jô Soares, Eugênio Kusnet e Ruth Escobar no elenco).
Seu primeiro livro, ‘‘Lugar Público’’, foi publicado pela Civilização Brasileira em 1965. Vai ser o próximo a ganhar reedição da Papagaio. Depois virão os textos inéditos, e talvez o volume inacabado ‘‘Terracéu’’, citado no prefácio de Caetano. A obra cinematográfica também será escavada. No próximo mês, o Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo exibirá o longa ‘‘Hitler no Terceiro Mundo’’ dentro da mostra ‘‘Cinema Marginal e suas Fronteiras’’.
Já para o segundo semestre, o Itaú Cultural paulista promete uma exposição com todo o seu legado. Programação obrigatória para a geração Internet.
‘‘PanAmérica’’. 264 páginas. R$ 25,00. Lançamento: Editora Pagagaio. Tel/fax: (11) 3051-5544. E-mail: [email protected].

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