CONTRACULTURA VERDE-AMARELA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de junho de 2001
Nelson Sato De Londrina 
É quase um milagre. Quando ninguém mais parecia lembrar-se de José Agrippino de Paula, sua obra volta a rondar as cabeças, desta vez impulsionada por uma inesperada celebração. A epopéia pop PanAmérica já circula nas livrarias provando que nem tudo na contracultura dos trópicos sucumbiu à cova das manifestações datadas.
O lançamento é da editora Papagaio, que anuncia publicar as obras completas do artista. PanaAmérica tornou-se uma referência cult dos anos 60. Continua desconcertando leitores tardios. Traz uma sucessão de peripécias vividas por um narrador improvável, cercado invariavelmente por celebridades hollywoodianas, musicais, políticas e esportivas.
Marilyn Monroe, John Wayne, Burt Lancaster, Humphrey Bogart, Brigidet Bardot, Marlon Brando, Cary Grant, Yul Brynner, Tony Curtis, Frank Sinatra, Che Guevara, Martin Luther King, Charles de Gaulle e Cassius Clay são alguns dos personagens que cruzam seu caminho enquanto ele roda um filme baseado na Bíblia Sagrada e participa de uma operação de guerrilha revolucionária.
Não há diálogos e nem parágrafos. Apenas blocos intercalados de fragmentos oníricos. Agrippino levou três anos para escrever PanaAmérica. Publicou-o em 1967 pela extinta Tridente. Uma segunda edição sairia em 1988 pela Max Limonad. Um trecho do livro foi musicado por Caetano Veloso e Gilberto Gil na faixa Eu e Ela Estávamos ali Encostados na Parede, do álbum Doces Bárbaros. Caetano o citaria ainda em Sampa (PanAméricas de Áfricas Utópicas / Do mundo do samba / mais possível novo Quilombo de Zumbi) e no livro de memórias Verdade Tropical no qual tece um longo comentário.
É o próprio cantor e compositor baiano quem assina o prefácio desta terceira edição. Ainda hoje, quando o releio, ele guarda seu poder de impacto. É um caso único na literatura brasileira escreve. Agrippino, hoje com 63 anos, mora sozinho no Embu, cidade a 25km de São Paulo. Vive com os R$ 250,00 da aposentadoria da mãe. Nos anos 70, sofreu crises de esquizofrenia e teve de ser internado. Pouco antes, viajara pela África, Londres e Nova York.
Mas foi no final da década anterior que criou intensamente destacando-se não só como escritor, mas como diretor teatral (com os espetáculos Rito do Amor Selvagem, Tarzan Terceiro Mundo e Mustang Hibernado), produtor de musicais (com Planeta dos Mutantes, protagonizado por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sergio Baptista) e cineasta (especialmente com o filme Hitler no Terceiro Mundo, que incluía Jô Soares, Eugênio Kusnet e Ruth Escobar no elenco).
Seu primeiro livro, Lugar Público, foi publicado pela Civilização Brasileira em 1965. Vai ser o próximo a ganhar reedição da Papagaio. Depois virão os textos inéditos, e talvez o volume inacabado Terracéu, citado no prefácio de Caetano. A obra cinematográfica também será escavada. No próximo mês, o Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo exibirá o longa Hitler no Terceiro Mundo dentro da mostra Cinema Marginal e suas Fronteiras.
Já para o segundo semestre, o Itaú Cultural paulista promete uma exposição com todo o seu legado. Programação obrigatória para a geração Internet.
PanAmérica. 264 páginas. R$ 25,00. Lançamento: Editora Pagagaio. Tel/fax: (11) 3051-5544. E-mail: [email protected].


