Livro é que nem remédio, nem sempre o que funciona para uma pessoa, serve para outra. Às vezes, o tal comprimido que foi uma beleza para o fulano, não prestou para curar a dor de cabeça do beltrano. Da mesma forma, não há Nobel nem Oscar que garantam unanimidade para Saramago ou Spielberg. E no entanto, se existe uma coisa que todo mundo gosta é de recomendar remédios, filmes e livros. Ciente disso, a editora SM resolveu lançar a série ''Leituras de Escritor'', em que os próprios autores fazem uma coletânea das obras alheias que eles mais apreciam.
Quem inaugura a série é a escritora e jornalista Ana Maria Machado, premiada várias vezes, membro da Academia Brasileira de Letras e uma das fundadoras da primeira livraria nacional especializada em livros infanto-juvenis, a Malasartes. Mesmo sem se considerar uma leitora habitual de contos, Ana Maria buscou na memória e selecionou 14 histórias, cheias de drama, humor e realismo, assinadas por gente como Edgar Allan Poe, Somerset Maugham, Stanislaw Ponte Preta e Rubem Fonseca.
O fato de serem contos, e de autores de diferentes épocas, estilos e nacionalidades, torna a leitura leve e gostosa. Ao mesmo tempo, é uma boa oportunidade de conhecer os escritores; alguns, como O. Henry, Saki e Scott Fitzgerald, não são encontrados facilmente por aí.
Para quem gosta de mistério, o livro começa com 'A Carta Roubada', um dos clássicos de Poe; 'A Última Folha', de Henry, é um drama com um final surpreendente. Já o pobre personagem de 'O Almoço', de Maugham, faz a gente sofrer e dar risada ao mesmo tempo. Alguns contos deixam um gosto amargo, como o de Mário de Andrade; outros fazem a gente sonhar, como 'O Avião da Bela Adormecida'.
Com esses contos é possível brincar de memória - os estilos são tão pessoais que mesmo sem olhar para a assinatura do autor dá para arriscar - e acertar - muitos palpites. ''A Duquesa e o Joalheiro'' só podia ser da Virginia Woolf. Quem mais descreveria o vício e a marginalidade da aristocracia com uma crítica tão elegante? Da mesma forma, ''A Ignorância ao Alcance de Todos'' também é a cara de Stanislaw Ponte Preta, ou melhor, Sergio Porto. Quer ver? Olha só um trechinho: ''Todo dito popular funciona e ficaria o dito pelo não dito se os ditos não funcionassem, dito o quê, acrescento que há um dito que não funciona, ou, melhor dito, é um dito que funciona em parte''.
Cada um dos contos traz um breve perfil do autor e um comentário de Ana Maria Machado. Como ela mesma explica, eles não são os vencedores de uma competição. Não são os mais lidos nem os melhores. São leituras que tocam a emoção, a razão ou simplesmente, que dão prazer. A série tem outras duas coletâneas, organizadas por Luiz Ruffato e Moacyr Scliar.
Provavelmente, assim como os remédios e filmes, o leitor vá gostar de alguns, e detestar outros. Tudo bem. Afinal de contas, vale a pena experimentar, nem que seja só para poder indicar os SEUS melhores contos, depois.
SERVIÇO
Leituras de Escritor - Ana Maria Machado
Ilustração - Thais Beltrame
Editora - SM
Páginas - 256
Preço - R$ 30

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