A escritora Marina Colasanti recorreu a histórias insólitas para formar os contos de seu novo livro ‘‘O Leopardo É um Animal Delicado’’. Como a de um sujeito que acorda certo dia e descobre que tem feições de chinês. Ou a da mulher que vai a uma espécie de circo erótico e ataca dois homens. Ou ainda a do pastor que apaixona-se por uma ovelha.
Para escrever ‘‘O Leopardo É um Animal Delicado’’ (Editora Rocco/R$ 18) a jornalista usou como inspiração desde notícias de jornal até histórias contadas por amigos. Antes de escrever, porém, ela sempre ouve o marido, o também escritor Affonso Romano de Sant’Anna. Casados há 27 anos, os dois costumam trabalhar em casa. Para manter a privacidade, o casal optou por escritórios separados. Na hora de trocar informações e tirar as dúvidas de português, usam um interfone. Na casa, rodeada de estantes com livros dos mais variados, a escritora não pára.
Além de escrever, Marina trabalha como tradutora e pesquisadora. Ainda arranja tempo para ilustrar as capas de seus livros e pintar quadros. Depois de 30 livros publicados e alguns prêmios na área de jornalismo e literatura - como os dois Jabuti pelas obras ‘‘Eu Sei Mas Não Devia’’ e ‘‘Rota de Colisão’’ - Marina decidiu aproveitar o lançamento de ‘‘O Leopardo É um Animal Delicado’’ para também publicar ‘‘Gargantas Abertas’’, com as poesias que se acumulavam na gaveta. ‘‘Um poeta se faz no percurso’’, acredita a escritora.
Por que você decidiu lançar dois livros simultaneamente?
Marina Colasanti - Por três motivos. Primeiro porque achei que, lançando os dois juntos, meu trabalho ficaria mais evidente. Hoje em dia, os escritores são reféns de um esquema assassino do mercado. Os editores não fazem publicidade formal, ficam contando com a imprensa. Se não sai nada na imprensa, os livreiros não compram os livros. Eles não compram, o público não fica sabendo e o livro tem uma circulação ridícula. Depois porque os livros ficaram prontos quase ao mesmo tempo. E por último por querer mostrar a unidade do meu trabalho. O lançamento de um livro deveria ser a fase mais prazerosa para um escritor, mas acaba sendo a mais dolorosa.
Como se pode reverter essa situação?
Marina Colasanti - Chamar um especialista de marketing. O livro é o único produto universal que pretende vender-se fora do mercado moderno. Todos os produtos são anunciados: de biscoito a absorvente. O escritor investe tempo e dinheiro e o trabalho é jogado no espaço. Apesar de tudo, sempre vendo a minha edição.
Seus contos narram desde situações cotidianas até surreais. Qual a fonte de inspiração?
Marina Colasanti - A coisa mais fácil é ter idéias para a narrativa. A vida é uma grande e infinita narrativa múltipla. As pessoas falam da própria vida e da vida dos outros. O jornal e a tevê também. Em geral, não costumo pegar um fato. Dessa vez, só publiquei dois que me foram contados: um pela Clarice Lispector e o outro pelo cineasta Luiz Carlos Barreto. Mas em geral só trabalho fragmentos e idéias que eu sinta uma certa ressonância, aderência, dentro de mim. Eles me seduzem e eu sigo as pistas da sedução.
Você trabalha muito com o universo feminino. É mais fácil para você?
Marina Colasanti - Tenho uma visão de mulher e acho que escrevo sobre mulher melhor que a maioria dos homens. Porque eu sou mulher e trabalhei muito com a intimidade das mulheres. Durante 18 anos trabalhei numa revista feminina e passei seis anos respondendo a cartas de mulheres. Isso me deu uma boa visão do universo feminino.
Como é a rotina de escritora ao lado de um marido que segue a mesma profissão?
Marina Colasanti - A gente compra aquela pilha de jornais e um comenta com o outro. Os projetos são comentados antes e também durante a feitura. O Affonso vai lançar um livro sobre a Arte Barroca e eu mergulhei com ele no tema. Fomos a Roma - onde morei até os 7 anos - e o levei a todos os pontos que tinha o estilo barroco.
Após o lançamentos desses livros, qual o próximo projeto?
Marina Colasanti - Tenho muitos. Agora estou terminando uma tradução para poder começar outra. Tenho vários projetos: livros infantis, duas novelas... Em outubro embarco para o Texas, onde passarei um mês como escritora residente.

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