Ele levantou silenciosamente da cama, vestiu um roupão vermelho e saiu do quarto lentamente para não acordar a mulher. Foi até a garagem, onde guardava suas armas de caça, pegou uma espingarda de dois canos, colocou cartucho e caminhou até a varanda. Sentou-se numa cadeira, tirou os óculos. Os pensamentos que borbulhavam em sua cabeça pouco se sabe. Colocou o cano da espingarda dentro da boca e puxou o gatilho.
O som do disparo acordou a madrugada de verão de 1961. Os jornais noticiaram que a mulher encontrou Hernest Hemingway pela manhã, caído no chão da varanda com o crânio estraçalhado. Aos 60 anos de idade colocava um ponto final na vida. De maneira trágica, realizava o mesmo gesto de seu pai, que décadas antes havia colocado o cano de um revólver na boca e puxado o gatilho.
O escritor norte-americano Hernest Hemingway (1899-1961) já era um autêntico mito da literatura contemporânea, quando seu suicídio jogou mais lenha na fogueira. O homem grande e forte, másculo e aventureiro, caçador e soldado, pescador e literato, colocou mais uma pedra na construção de sua imagem. Como um dos escritores de língua inglesa mais importantes deste século, vencedor do Nobel de Literatura em 1954, Hemingway deixou uma vasta produção trafegando entre a literatura e o jornalismo.
A Editora Civilização Brasileira está lançando o segundo volume de ‘‘Contos’’ de Hemingway. Organizado pelo próprio autor, o volume compreende contos escritos entre 1921 e 1938. O critério de escolha, diante da vasta produção, foi o gosto pessoal de Hemingway.
Em seus contos e romances, Hemingway procurava chegar próximo ao real a melhor possível. Narrando o universo das pessoas comuns, perseguia a perfeição como um caçador obstinado. Estudava frase por frase, escrevia e reescrevia, sempre utilizando um simples lápis, quantas vezes fosse necessário para chegar onde queria. Alguns textos chegou a reescrever 36 vezes, como uma espécie de ferreiro que lapidava o bruto em busca de impurezas.
Hemingway: ‘‘Indo onde se deve ir, fazendo o que se tem de fazer, observando o que há para observar, qualquer um encontra e identifica material e instrumental para escrever uma história. Quanto a mim prefiro trabalhá-los e poli-las bastante, prefiro ter de colocá-las, por assim dizer, numa espécie de bigorna, martelá-las até forjá-las a contento, ou mesmo apenas moldá-las numa pedra já formentada, e assim saber que tenho algo sobre o que escrever: prefiro isso a ter aquele material claro e brilhante, já pronto, e não ter nada a dizer, ou então tê-lo limpo e bem lubrificado, guardado no armário, mas fora de uso’’.
As histórias de ‘‘Contos - Volume 2’’ possuem os temas recorrentes de Hemingway: lembranças da guerra, conversas de bares, coragem e covardia, caçadas e caminhadas. Uma destas histórias foge da narrativa característica do escritor. Em ‘‘História Natural dos Mortos’’, Hemingway realiza uma irônica abordagem naturalista da morte. Retirando o lado emocional da morte, trata do fato como médico que costura um corpo quase morto, não costurando um homem, uma vida, mas um corpo como um simples objeto de manipulação. De maneira requintada, chega à conclusão de que qualquer discussão acerca da morte é completamente inútil já que a morte é senhora de si mesma e alheia à qualquer discussão.
MarcasA morte sempre foi um fato presente na vida de Ernest Hemingway. Aos 18 anos de idade já presenciava a morte dirigindo uma ambulância da Cruz Vermelha pelas estradas da Itália durante a Primeira Guerra Mundial. Voltou para casa com cicatrizes de estimação de granada. Suas aventuras, seja caçando leões na África, pescando na águas do Caribe, na frente de batalha das duas grandes guerras, deixaram marcas em seu corpo: três acidentes automobilísticos, dois acidentes aéreos, um ferimento na espinha, uma ruptura de rim, uma vértebra estraçalhada, uma rótula quebrada, um ferimento no olho e queimaduras por todo o corpo.
Em 1954, percorrendo a África caçando leões, leopardos e impalas, o avião em que estava caiu no Congo. Ele foi um dos únicos sobreviventes. O avião que o socorreu do acidente também caiu logo após realizar o resgate. Ele foi o único sobrevivente.
No fim da vida Hemingway sofria de uma síndrome de perseguição. Não conseguia ficar mais que quinze minutos num mesmo lugar que acreditava que alguém estava em seu encalço. Chegou a realizar um tratamento de eletrochoques na tentativa de cura. Foi uma clara decadência de sua imagem máscula de aventureiro, admirador de touradas, caçadas, pescarias e consumidor de tonéis de bebidas alcoólicas.
Neste processo sua produção literária não sofreu alteraçõews. Seus romances como ‘‘O Sol Também se Levanta’’, ‘‘Adeus às Armas’’ e ‘‘Por Quem os Sinos Dobram’’ possuem a mesma vitalidade de seus contos escritos posteriormente. Com um vasto material inédito, Ernest Hemingway influenciou várias gerações de escritores e deu um novo fôlego ao texto jornalístico.
‘‘Contos - volume 2’’, de Ernest Hemingway, Editora Civilização Brasileira, tradução de Ênio Silveira e José J. Veiga, 320 páginas, R$ 32,00.

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