São Paulo, 11 (AE) - Lygia Fagundes Telles gosta de dizer que a vida, como os livros, é feita de acasos. E usa o sonho como matéria-prima para desvendar a alma humana. Três contos de Lygia Fagundes Telles (do livro Pomba Enamorada, da LP&M) constituem a base do novo filme de Del Rangel. "Contos de Lygia" estréia amanhã (12). É decepcionante, apesar de um certo cuidado de produção. O diretor não entendeu, ou pelo menos não consegue expressar, nada das densidades e sutilezas da escritora, chamada de dama da literatura.
São três histórias que se interligam por tratar do tema da morte. Não conseguem articular-se num discurso integrado nem quando às imagens de uma superpõem-se as de outra. A exterioridade da ação está toda lá, mas não a delicadeza da escrita. Lygia, que gosta de citar Barthes ("Eu marcho na retaguarda da vanguarda"), odeia a vulgaridade da nossa época. A vulgaridade dá o tom de "Contos de Lygia".
Rangel, atual diretor de Dramaturgia da Band, foi produtor-executivo de diversos filmes dos Trapalhões. Dirigiu "O Trapalhão na Arca de Noé", nos anos 80. Tenta um projeto mais autoral e ambicioso. Associa Lygia com Shakespeare (a segunda história tem como epígrafe o sono da morte de Hamlet) e o mitólogo Joseph Campbell, que forneceu assessoria a George Lucas na série "Guerra nas Estrelas". Em princípio, é positivo, mas não suficiente. Três histórias de morte. "Venha Ver o Pôr-do-Sol" e "A Caçada" são adaptadas dos contos de mesmo nome. A terceira, "A Fuga", faz a síntese de "Os Objetos" e "A Fuga".
Quando a primeira começa, um amante rejeitado (e desesperado) está deixando uma mensagem na secretária-eletrônica da ex. O atual namorado dela ouve a lamúria e por pouco não mata a moça. Ela cede à pressão do ex e aceita o pedido dele para um encontro num cemitério. Viviane Pasmanter é a moça, Luiz Guilherme, o atual namorado e Tarcísio Filho, o ex-amante.
Viviane tem um tipo interessante. Foi bem fazendo uma vilã na telenovela "Por Amor". Não rende a mesma coisa, mas se o episódio não funciona não é por culpa dela. Falta clima, um problema que se repete (e até se agrava) nas demais histórias. A segunda é a que fala do sono da morte. Um roteirista escreve uma história que desagrada a um diretor. O roteirista visita um antiquário e fica obcecado por um quadro representando uma caçada. Projeta-se nele. Conclui que esteve lá. Celso Frateschi e Bruno Giordano são os atores.
A terceira história poderia ser a melhor. Tem atores do porte de Gianfrancesco Guarnieri e Nathália Timberg. Protagonizam um casal de meia-idade que vive um momento difícil da relação. O marido está morrendo de câncer e acusa a mulher de desejar sua morte para ficar livre (e casar-se com outro). Poderia ser bom, mas não é. É gritado demais. Nada de meios tons. Histeria pura que não corresponde à aura de obra mítica a que poderia aspirar, pela associação com o nome de Campbell.
A partir de "Contos de Lygia" pode-se fazer uma radiografia de certas dificuldades enfrentadas pelo cinema brasileiro. Na fase da retomada, era possível ser mais condescendente com os defeitos porque, afinal de contas, o cinema ressurgia depois de uma longa noite e precisava de incentivo. Hoje, quando obras como "Central do Brasil" conseguem merecido reconhecimento internacional, é preciso parar de afagar a cabeça dos diretores e ser mais crítico e exigente. Nesse novo quadro, fica difícil poupar um filme como esse.

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