CONTOS DE ALÉM-MAR
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
O paranaense Yuri Sanada e a esposa Vera, que viajaram o mundo em um veleiro, lançam livro em que analisam o descobrimento, a vida a bordo das naus, e as lendas que povoavam os oceanos
A oeste do continente europeu se estendia o oceano, águas misteriosas que guardavam o desconhecido, o fim do mundo, monstros e cataclismas inimagináveis. Mesmo no final do século 15, quando o mistério foi decifrado oficialmente, a navegação era uma tarefa insegura. Por que, então, marinheiros experientes toparam entrar em naus insalubres para atravessar, precariamente, um lugar tão medonho?
A conquista dos mares e, particularmente, a descoberta oficial do Brasil por Portugal é uma história longa, que envolve muitos povos e remonta às Cruzadas. Este é um dos enfoques de Histórias e Lendas do Descobrimento, livro lançado por Yuri e Vera Sanada pela Ediouro.
Yuri Sanada é londrinense e vive com a esposa, Vera, em um veleiro. Ambos já rodaram o mundo e visitaram a maioria dos locais narrados na obra. O material que resultou no livro foi acumulado durante visitas a museus, viagens e leituras. Mais do que um texto histórico, Histórias e Lendas do Descobrimento é um relato rico de informações sob a ótica de quem vive e conhece o mar.
Durante as várias viagens que fez, o casal recolheu lendas, mapas e histórias. Yuri e Vera se preparam agora para uma nova aventura: vão até Portugal para participar da regata em comemoração aos 500 anos do descobrimento, que vai percorrer os mesmos rumos de Cabral. A viagem deve resultar em um livro fotográfico. Em seguida, em junho, Yuri deve aparecer em Londrina para visitar a família.
Nós moramos em um veleiro, gostamos da história das navegações e percebemos que as pessoas acham que o Brasil não tem tradição náutica. Nós discordamos, e achamos que a náutica é muito importante para o país. Nossa história náutica tem milênios e abrange uma série de povos que se interagiram para chegar até aqui, comenta Yuri Sanada, em entrevista por telefone à Folha2.
A idéia de colocar os conhecimentos no papel ganhou incentivo com as comemorações dos 500 anos do descobrimento: Nós estivemos em quase todos os locais narrados pelo livro. Com os 500 anos do Brasil, só tivemos a iniciativa de colocar no papel.
Toda essa história, começa, teoricamente, no século 11, com o início das Cruzadas. Durante as expedições à Terra Santa surgiu uma importante ordem, a dos Templários, um exército poderoso e influente. Mas, quando os estados dominados pelos cruzados caíram em 1291 e o crescimento do islamismo se tornou evidente, as ordens passaram a ser questionadas.
Em pouco tempo os Templários eram apontados como traiçoeiros. As prisões se ampliaram e o Papa Clemente V decretou que vários cavaleiros importantes fossem queimados em praça pública. A Ordem dos Templários foi extinta, mas sua riqueza se deslocou para um país incipiente, Portugal, que não acatou as decisões do Papa. Além das riquezas que vieram da Terra Santa, Portugal teve acesso aos seus segredos.
As contingências desembocaram no surgimento da Escola de Sagres, onde foram desenvolvidos estudos para a conquista de lugares desconhecidos. As pesquisas de Sagres resultaram nas primeiras explorações portuguesas, com a descoberta das ilhas de Porto Santo e Madeira, e, posteriormente, no descobrimento do Brasil.
Os autores, porém, citam uma série de hipóteses que abrem um vasto campo de especulações. A casualidade é questionada. Tempestades ou calmarias não teriam possibilitado a descoberta. No caso da tempestade, Yuri e Vera são tácitos: o tempo ruim não manteria a frota unida até a chegada às novas terras. A tão divulgada calmaria esbarraria num contratempo: uma corrente levaria a frota até Fernando de Noronha e depois a arrastaria para a África, não para Porto Seguro. Palavra de navegador.
As informações não se encerram aí: Yuri e Vera Sanada desvendam a vida a bordo das naus, as rotas marítimas, a formação do povo brasileiro, os instrumentos usados na época. E vão além, revelando vários indícios da presença de outros povos no Brasil antes dos portugueses, citando textos e documentos de época. As próprias lendas que encobriam o atual Oceano Atlântico teriam nos fenícios grandes divulgadores. Os autores levantam a possibilidade da presença do povo navegador por aqui e os consequentes boatos sobre os perigos do mar para afastar qualquer curioso das terras descobertas.
Com tantas evidências, por que a versão oficial do descobrimento ainda é sustentada? Pelo fato de que, na maioria das vezes, a história é escrita pelos vencedores. Quem ganha é quem conta a história, a versão oficial não vai mudar. A nossa intenção não é criar polêmica, mas mostrar outras versões do que se passou, argumenta Yuri. Vale destacar que o texto é direto e didático, sem tentativas literárias.
Os autores viajavam pelo mundo quando se conheceram em 1989. Desde então, viveram em vários países, como Inglaterra, Israel, Itália, Estados Unidos e Japão. Há cinco anos moram no mar, e hoje habitam o veleiro Marauder, de 30 pés. O casal partiria do Guarujá para Lisboa na quinta-feira passada. De lá, a regata segue por Funchal, São Vicente, Salvador, Santa Cruz de Cabrália e Rio de Janeiro.
A aventura se desenvolve com apoio tecnológico. Os navegadores do Marauder vão contar com a ajuda de dois satélites, e a viagem pode ser acompanhada pelo site www.aventura.com.br. A home page será alimentada com fotos inéditas, e permite o contato por e-mail com o casal.
Histórias e Lendas do Descobrimento De Yuri e Vera Sanada. Ediouro, 224 páginas. Preço: R$ 37,00.





