Conto de fadas e de terror
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
O holocausto e seus permanentes desdobramentos cinematográficos. A questão é: como ser original e interessante em território tão exaustivamente explorado. Por isto mesmo, por estas dificuldades, deve-se receber com alívio e agrado um filme como ''O Menino do Pijama Listrado'', em lançamento hoje na cidade.
Não muito distante do fim do pesadelo nazista, anos 1940, Bruno, garoto filho de um oficial das SS, sai de Berlim com a família para morar num casarão no interior, novo destino de seu pai. Ali Bruno conhece e se torna amigo de Shmuel, menino judeu encerrado num campo de concentração que é confundido com uma granja.
Inspirado no relato literário homônimo assinado por John Boyne, ''O Menino do Pijama Listrado'' condensa fielmente a novela juvenil que se tornou best-seller mundial. Livro e filme, em estilo sucinto e eficaz, contam esta história de final de infância (Bruno tem nove anos no livro, oito no filme). Boyne é uma das maiores revelações literárias recentes graças a esta sensível e contundente narrativa em torno do vinculo entre inocência e horror. Aliás, sobre a perda da inocência. Na adaptação, o diretor inglês Mark Herman não perdeu de vista este aspecto essencial, e o expõe na tela com sobriedade e sensibilidade, evitando qualquer excesso melodramático.
O recado que se pode apreender ao longo da história é aquele do perigo dos totalitarismos - neste caso o nazista, mas extensível a todo tipo de ideologias impositivas. À ameaça nunca descartada do pensamento único que instaura símbolos e novas mitologias, reais ou fictícias, à tragédia do fim do pensamento livre, da lavagem cerebral doutrinária desde a infância.
Ainda que apresente pequenas reiterações, um ou outro estereótipo e situações às vezes não muito críveis, o filme decorre com boa fluidez, sem recorrer ao sentimentalismo deslavado, em meio a uma atmosfera que mescla o conto de fadas ao pesadelo do terror. Porque o espectador sabe mais que o pequeno herói desta história, e pressente que não haverá solução feliz.
A fotografia opta por tonalidades e gradações de verde e evoca não somente o tom dos uniformes, mas as árvores que ocultam o campo e a lividez cadavérica dos prisioneiros. A trilha de James Horner também acentua o clima de mágoa que toma conta do espectador. E a imagem que fecha ''O Menino do Pijama Listrado'' vale por muitos discursos.


