Há pouco mais de uma década, um fenômeno cultural surgiu em Londrina revelando um surpreendente interesse de jovens da classe média pelas tradições populares do Nordeste do País.
A novidade era que o interesse não se reduzia à admiração ou à pesquisa teórica sobre o assunto, mas se traduzia na formação de grupos ou coletivos voltados para a criação de projetos inspirados em manifestações tradicionais como o bumba-meu-boi, ciranda e maracatu.
O ''movimento'' intrigou o professor do Departamento de Arte Visual da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Kennedy Piau, que decidiu se aprofundar no tema investigando tanto as experiências locais de apropriação e reinterpretação das artes nordestinas quanto as relações dos mestres do Maranhão e de Pernambuco com essas produções artísticas do Sudeste.
O resultado da pesquisa foi registrado no livro ''No Caminho dos Encantantes: contaminações estéticas com a arte popular'', escrito em parceria com a socióloga Bruna Muriel e publicado pela Eduel. O lançamento será no próximo sábado, às 20h, no Sindiprol/Aduel (Praça La Salle, 83).
''A proposta do livro é tentar entender como jovens de classe média se encantam por manifestações culturais populares, cuja dinâmica envolve outras dimensões além do formalismo e se diferencia do sistema de arte hierarquizado, hipócrita e excludente'', diz ele.
Para desenvolver a pesquisa, Piau elegeu quatro núcleos representativos em Londrina, todos influenciados por manifestações emblemáticas do Maranhão (bumba-meu-boi e cacuriá) e de Pernambuco (maracatu, coco e ciranda): Vila Cultural Alma Brasil, Vila Cultural Vila Brasil, Grupo L.A.T.A (transformado hoje no grupo de maracatu Semente de Angola) e Oficina Arubatá.
''Esses grupos eram os mais estruturados, com projetos aprovados no Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). Existiam outros grupos, assim como surgiram outros novos de lá para cá. Mas, na verdade, todos são intercambiáveis com integrantes de um grupo participando de outro grupo. Não há uma organização fixa, seus participantes se juntam conforme os eventos vão sendo realizados'', explica o professor.
Para uma compreensão mais ampla do fenômeno, Piau, Bruna Muriel e mais três assistentes (Camila Pierobon, Fiorela Bugatti e Lucas Kiler) viajaram 25 mil quilômetros de carro ao longo de oito meses conhecendo diversas manifestações do Nordeste - entre elas o cortejo de Folia de Reis em Carolina, a festa da Batata na sambada do Coco de Umbigada em Olinda (PE) e o Bumba Meu Boi em Maracanã (MA).
Durante a viagem, viabilizada com uma bolsa da Funarte, entrevistaram personagens como Lia de Itamaracá, Mestre Humberto do Boi Maracanã, Mestre Afonso do Maracatu Leão Coroado, Mestre Amaral dos Tambores de Crioula de São Luís e Mãe Bete de Oxum - todos referências da cultura tradicional no País. ''Temos muito material registrado incluindo um acervo de 5 mil fotografias, das quais foram utilizadas 150 no livro. Também rodamos 100 horas de vídeo, que serão transformadas em quatro documentários'', revela.
Assim como os jovens atuantes em Londrina desenvolvem a maioria de suas atividades com amparo de recursos oficiais através do Promic, seus mestres recebem verbas públicas através do programa Cultura Viva/Pontos de Cultura do Ministério da Cultura. Daí, a relação dos dois segmentos com as políticas governamentais na área de cultura ganhar destaque no livro.
O volume é dividido em três partes: a primeira analisa concepções de Estado no Brasil e suas respectivas políticas culturais; a segunda fecha o foco sobre a política cultural estabelecida em Londrina; e a terceira aborda as percepções de mestres e jovens sobre o papel do Estado, os processos de legitimação, a qualidade artística e as relações entre fé e prazer nas artes tradicionais.

Serviço:
- Lançamento do livro ''No Caminho dos Encantamentos: Contaminações Estéticas com a Arte Popular''
Autores - Kennedy Piau e Bruna Muriel
Quando - Sábado (dia 29) às 20h
Onde - Sindiprol/Aduel (Praça La Salle, 83), em Londrina
Informações - (43) 3371-4498 ou [email protected]

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