Construir, destruir, reconstruir, rememorar, aceitar, esquecer, ir adiante, celebrar, comemorar, voltar ao que era antes, de antes, quando tudo era indistinto. Massa informe em estado caótico. Antes do surgimento do tempo e do espaço. Quando um grande acúmulo de energia liberada explodiu e do caos surgiu a vida. Do horror nasceu a beleza. Da lama o lótus. É claro que um toque pode ser uma provocação. Que uma provocação pode originar a vida ou a guerra, mas o rigor não tem nada a ver com a sede temos em elucidar nossas dúvidas. O mundo se enche de certezas sob o domínio da fé, separando então os homens. E a ciência se vende pela lei de oferta e procura. A promessa de estabilidade capaz de garantir a manutenção de um sistema vitorioso foi-se por terra. A fé e a ciência, antes em campos opostos, agora servem ao mesmo propósito bélico.
Mas é a entropia que deveria ser canonizada como estado físico-químico de transformação da matéria em metáfora. Simbolizadas pelas torres derrubadas nos EUA, em memória da tragédia que nos fez e faz a todos de vítimas, ela nos convida a refletir melhor sobre a noção do desequilíbrio. Se forem novamente reconstruídas sobre os escombros - como esforço de demonstração de superação aos ataques sofridos - todas as vítimas inocentes soterradas pelos edifícios que caíram, serão desconsideradas. Nossa chance de sermos iguais: Charles e Carlos, John e João, como operários que se transformaram em argamassa para a edificação do poder. Melhor, não.
Muitos perguntam o que a arte pode fazer mais espetacular do que o choque. Mas a única coisa que a arte pode fazer é permitir perceber que a estabilidade nunca está garantida. E nesse caminho vem apontando suas setas desde o movimento Dadá à época da primeira guerra mundial. Desconstruindo e desformatando padrões vigentes e normas estabelecidas em nome da ordem e da racionalidade, muito mais do que construindo objetos para a fruição estética, ou para chocar o público.
Pode ser mesmo que a arte esteja em um lugar paralelo ao que se denomina de realidade e que os artistas vivam em uma espécie de esfera do sonho, da alucinação, da loucura, mas ela é capaz de gerar uma espécie de compreensão sensível para este mundo, de modo a torná-lo mais significativo, fazendo presente o que vive em nossa inconsciência. Para a fenomenologia, uma cor é só uma cor, mas também uma metáfora, uma provocação de sentimentos, de paixões, de lembranças, etc. Uma alegoria, mas também um dado significativo do mundo. Um copo continua a sê-lo, independente de usado para se beber nele, ou para quebrá-lo. Tudo é só extensão, continuidade. O mundo é para ser vivido e habitado, vivenciado. E a história do mundo, também é mundo, em constante estado de desequilíbrio e entropia.
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