Num conto que de tão pequeno é chamado de ''Fábula Curta'', um rato refletindo sobre a própria vida, percebeu que, a cada dia, o mundo ficava mais estreito. Ele viu que muros cresciam ao seu redor, empurrando-o para uma ratoeira. ''O que tens a fazer é mudar de direção'', disse o gato devorando o ratinho.
A fábula do escritor austríaco, Franz Kafka (1883-1924), considerado um dos principais autores da literatura moderna, pode parecer um tanto cruel, mas a reflexão que o ratinho faz sobre o próprio mundo dividido entre cair numa ratoeira ou na boca de um gato faminto e espertalhão, ilustra uma outra realidade, que se apresenta aos que sabem reconhecer novas oportunidades e possibilidades na adversidade.
Os mais de 400 adolescentes, de 35 escolas, com idade entre 12 e 16 anos, em situação de vulnerabilidade social e risco pessoal que participam dos projetos do Centro Social Marista Irmão Acácio (Cesomar), no Conjunto João Paz (Zona Norte), em Londrina, são exemplos de que é possível derrubar os muros e driblar o gato, escrevendo um novo enredo para a própria vida. O título dessa nova história começa com a palavra ''cidadania''.
''Para mim cidadania inicia com alguns direitos, como ter acesso à documentação pessoal, poder ir e vir, mas também exige algumas obrigações'', afirma o estudante Gustavo Vinicius Dionisio, 15 anos.
Lições que o garoto está aprendendo nas diversas oficinas que o Cesomar oferece no contraturno escolar para adolescentes da Zona Norte. O trabalho alcançou o reconhecimento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (United Nations Children's Fund - Unicef), com o Prêmio Itaú-Unicef 2007. A premiação destaca projetos que combinam proteção social com educação.
O caminho para escapar dos muros representados pela falta de oportunidades e exclusão social não tem somente duas direções: a ratoeira ou o gato, como no conto de Kafka, mas é uma rua onde todos os adolescentes podem passar em segurança, através de iniciativas como as oficinas realizadas pelo centro.
Ao frequentarem o Cesomar, os jovens escolhem uma das seis oficinas específicas oferecidas, entre as quais as de Artes Cênicas; Artes Plásticas; Expressão Musical; Expressão Corporal e Cultura e Movimento, sendo que a de teatro tem uma turma extra.
Além dessas atividades, o centro oferece oficinas comuns a todos os adolescentes, como a de Informática Educativa; Meio Ambiente e Cidadania; Jogos Cooperativos e a de Educomunicação, que conquistou o reconhecimento do Unicef. ''Em todas as nossas oficinas, o objetivo não é formar profissionais, mas trabalhar o protagonismo desses adolescentes e a possibilidade de todos encontrarem uma oportunidade na vida e que possam fazer diferença na região em que moram'', ressalta Jackeline Guerreiro, assessora pedagógica do Cesomar.
O centro reconhece que não descobriu como desarmar definitivamente a ratoeira ou espantar o gato da vulnerabilidade social ou risco pessoal que, às vezes, não se revelam só no consumo de drogas, envolvimento em alguns delitos, mas estão disfarçados no trabalho infantil, na desestruturação familiar ou nos aspectos econômicos.
Porém, uma das chaves que abre a porta para a cidadania é a da busca pela garantia dos Direitos Humanos e da formação integral dos jovens. ''Quando os jovens começam a frequentar o centro não acabam as situações de vulnerabilidade. Temos a oferecer projetos, não uma fórmula mágica'', completa Jackeline.
Caminhando nesse sentido, o centro não lembra em nada uma escola formal. A infra-estrutura é semelhante a de colégios particulares, onde o conforto e bem-estar dos adolescentes não são privilégios, mas uma prioridade para tornar o aprendizado mais prazeroso. Conceito que está espalhado pela biblioteca do centro, aberta a toda a comunidade. Além da leitura de jornais, revistas e livros num ambiente lúdico, com almofadas espalhadas pelo chão, os visitantes podem fazer empréstimos de obras e realizar pesquisas na internet.
Para ter uma biblioteca em condições de formar público leitor, o centro contou com apoio do Instituto C&A, que se responsabilizou pela adequação do espaço, formação de acervo e capacitação dos bibliotecários. Dentro da rede de proteção aos direitos dos adolescentes, o Cesomar conta com o apoio de outros organismos, como o Conselho Tutelar, que encaminham jovens para o centro. Parcerias como essa são importantes para que a metodologia de ensino alcance bons resultados. O diretor do Cesomar, irmão Mauro Lovato, acrescenta que o trabalho também envolve as famílias dos adolescentes.
Jackeline explica os segredos dessa pedagogia: ''Caminhar junto com os adolescentes significa perceber as necessidades deles e passar a tratá-las como temas nas atividades desenvolvidas pelas oficinas. Um problema pode se tornar argumento para uma peça teatral em que trabalhamos a leitura, composição e interpretação de texto. Cada coisa que acontece nas oficinas envolve discussão, debate e troca de idéias. Para nós, o produto final não é o mais importante, mas esse processo que oferece cidadania'', afirma a pedagoga.
Na avaliação do educador Roberto Camargo, responsável pela projeto Educomunicação, ao desenvolver as suas aptidões nas oficinas, o jovem também se auto-afirma, aprendendo ainda a assumir responsabilidades. Atribuições da cidadania que os jovens levam para casa, dividindo com os familiares, vizinhos e amigos.
Jackeline ressalta que ao retornar para a comunidade, o adolescente se torna uma voz na preservação e garantia dos direitos do cidadão. ''Talvez não consiga resolver alguns problemas, mas poderá conscientizar as pessoas. Ao voltar para a escola formal, o jovem terá uma postura mais madura'', avalia a pedagoga.
Na fábula de Kafka, o ratinho tinha apenas duas opções: a ratoeira ou o gato. O que os jovens do Cesomar estão fazendo é um pouco mais de esforço para encontrar uma saída na adversidade. A luz no fim do túnel já surgiu para alguns adolescentes que frequentaram o centro com a aprovação no vestibular. Pelo menos cinco ex-alunos conquistaram vagas na Universidade Estadual de Londrina (UEL), transformando o que seria uma fábula curta, representada pela falta de perspectivas e oportunidades, em um grande história de superação.

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