Ainda é novo o conceito de responsabilidade social no meio empresarial brasileiro, mas, felizmente, vem se consolidando. A idéia de que caberia totalmente ao governo a responsabilidade pela área social - já que encargos sociais são pagos com esse fim - chega a ser considerada simplista e diante de uma série de desafios sociais, muito contribuem as ações desenvolvidas pela iniciativa privada, principalmente na área educacional, que tem destaque nesse tipo de atuação.
Com 35 anos de funcionamento, a Sercomtel S/A há três decidiu implantar um programa de responsabilidade social voltada às áreas de esporte, educação e cultura. Há dez anos, a empresa conta com o Comitê de Solidariedade formado voluntariamente pelos funcionários, mas a empresa em si não tinha um comprometimento mais efetivo. Agora, no seu terceiro ano ''socialmente responsável'', destina R$ 700 mil do orçamento anual para os projetos que apóia. ''Nenhuma empresa vive de filantropia, mas é dever das empresas praticar a idéia de que precisam devolver para a sociedade parte da sua renda para promover a melhoria da qualidade de vida das pessoas menos favorecidas'', afirma o presidente da empresa, Francisco Roberto Pereira.
Ele concorda que esse tipo de cultura ainda é pouco praticada na cidade, mas espera que isso seja mais repetido. ''O consumidor está ficando mais consciente e perde a empresa que não acredita nesse diferencial para mostrar para o seu público'', destacou.
Um dos projetos desenvolvidos pela empresa é o ''Comunidade Informática'', que objetiva a inclusão digital de comunidades carentes. Iniciado em 2002, o projeto já viabilizou sete núcleos de informática, incluindo um instalado dentro da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). Cada unidade conta com 10 computadores, internet em rede, material pedagógico para as aulas e apoio para manutenção. Na Associação Maanaim de Apoio à Infância (Amai), no Conjunto Maria Cecília, as aulas acontecem nos três turnos e 90 adolescentes já completaram o curso básico de informática. ''A informática contribui para capacitar esses jovens para o mercado de trabalho, que, sem o projeto, não teriam condições nenhuma de aprenderem essa tecnologia'', explicou o presidente da associação, Willian Prenzler.
Aproveitar o potencial de adolescentes também é uma das áreas de atuação da Milenia Agrociências. Há um ano a empresa desenvolve um programa de responsabilidade social e um dos carros-chefes é o projeto ''Formare'', responsável pela capacitação profissional de 20 adolescentes de baixa renda de 15 a 17 anos. Para participar do programa, eles passam por uma seleção rigorosa, que inclui provas de conhecimentos gerais e avaliação psicológica. Aprovados, os jovens ficam período integral na empresa, sendo que devem estudar à noite. Como apoio, recebem bolsa-auxílio de R$ 120, passe-escolar, uniformes e assistência médica. Para Poliana Cristina de Oliveira, 17 anos, uma das beneficiadas pelo programa, o curso representou uma ''lição de vida''.
''É incrível o quanto aprendi e me sinto muito mais segura para enfrentar o mercado de trabalho'', afirmou.
O programa de capacitação é bastante abrangente e aborda desde cursos de línguas até tecnologia do processo produtivo, além disso há estágio na parte administrativa da empresa, que também organiza o encaminhamento profissional dos participantes no final do programa. ''Somos conscientes que a intervenção do privado não substitui o público, mas ajuda a promover mais agilidade ao sistema e melhorar as condições de vida das pessoas'', comentou o diretor de Assuntos Corporativos, Luiz Cesar Guedes. Para justificar a recente gestão em responsabilidade social da empresa, Guedes afirmou que isso se deve ao desenvolvimento de uma ''cultura organizacional'' que só agora ficou mais arraigada. ''Mas nós estamos muito satisfeitos com o programa, e vamos continuar investindo nessa área, que inclui outras atuações comunitárias como cursos de geração de renda e melhorias no bairro próximo a empresa'', afirmou. No ano passado, a empresa investiu R$ 350 mil no programa de responsabilidade social; para este ano, R$ 1 milhão.
Em Londrina, a Universidade Norte do Paraná (Unopar), que é uma instituição particular, também se destaca nas ações de cunho social na área de educação. Um dos projetos é o Biblos, que organiza a arrecadação de livros para equipar bibliotecas de bairros carentes. No final de junho, 10 mil livros foram entregues para a Escola Municipal Maria Cândida Peixoto Sales (região leste). A biblioteca, finalizada recentemente, foi construída pela Prefeitura e mobiliada com recursos da Associação de Pais e Mestres (APM). Os livros vão beneficiar 420 crianças da 1 a 4 séries e também atender um público de sete mil pessoas das comunidades dos jardins Santa Fé, Monte Cristo e Rosa Branca.
Dentro do conceito de projetos de extensão comunitária, a instituição desenvolve mais 21 projetos educacionais, atendendo um público-alvo de 18 mil crianças e jovens.
Uma das maiores referências no Paraná de responsabilidade social, o Boticário há 13 anos vem desenvolvendo um amplo programa nesse sentido. A cada ano destina 1% do seu faturamento líquido para o investimento social privado, o que no ano passado representou R$ 3,65 milhões. Desse total, cerca de 80% é aplicado na Fundação O Boticário de Proteção à Natureza para projetos e programas voltados à conservação ambiental com abrangência nacional. Os outros 20% são direcionados a outros programas sociais. Na área educacional, destacam-se os investimentos em publicação e distribuição gratuita de livros didáticos e a Estação Natureza, que é uma exposição interativa sobre a diversidade brasileira, localizada no Shopping Estação, em Curitiba. Na área social, o Projeto Crescer proporciona condições para jovens competirem no mercado de trabalho. Conta com a parceria da comunidade local e com a Guarda-Mirim de São José dos Pinhais (PR). Atualmente, participam do programa 28 menores aprendizes.

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