''É preciso ter força, mas também a intenção; sem ela, não dá para fazer um instrumento''. Das mãos habilidosas e do coração de artista de José Luiz da Silva já nasceram mais de dois mil instrumentos de percussão - que estão pelo Brasil afora, inclusive com o percussionista Naná Vasconcelos, e também no exterior, incluindo o grupo inglês Stomp.
Natural de São Carlos (SP), ''Peixe'', como é mais conhecido entre os amigos, chegou em Londrina em 1999 para prestar vestibular em Geografia pela Universidade Estadual de Londrina. A motivação foi a vinda de uma namorada, que cursaria Jornalismo na UEL. Para se sustentar, ele trabalhava em um escritório.
Um dia, quando foi buscá-la no encerramento de uma oficina de construção de instrumentos de percussão - realizada por Carlinhos Ferreira pelo Festival de Música de Londrina - teve uma experiência estética que mudaria a sua vida. Ao ver os instrumentos prontos, sobre uma mesa, ficou encantado com o que viu - sem saber que isso mudaria definitivamente os rumos da sua vida profissional.
Começou, então, de forma despretensiosa, a fazer os seus primeiros instrumentos nas horas vagas e participou de outras oficinas do Festival. E, desde, o início a sua formação técnica em mecânica industrial já dava indícios que tinha um propósito diferenciado: servir para canalizar a energia da música.
Aliando talento e uma certa dose de sorte, Peixe foi encontrando cada vez mais interessados pelos instrumentos que construía e em pouco tempo decidiu viver disso, embora tenha concluído a graduação em Geografia.
Para se aperfeiçoar, ele conta que não bastava apenas ter o ''conhecimento técnico'', era preciso ''sentir'' a história por trás de cada instrumento e partiu para uma série de viagens pelo Brasil. A intenção era ter um contato mais direto com alguns dos grandes mestres populares nordestinos da cultura popular - como o saudoso Mestre Salustiano, chegando a ficar hospedado em sua casa. ''É simples assim. A gente bate na porta dizendo que está disposto a aprender e eles nos acolhem, mesmo sem nunca nos terem visto'', comenta.
Das suas memórias afetivas, guarda com saudade a participação nas Festas do Divino, onde o sagrado e o profano brincam com desenvoltura; das lavadeiras nordestinas que detêm um grande conhecimento dos ritmos populares; das Festas do Boi Bumbá, no Maranhão, onde cada fita adornada no chapéu dos brincantes tem um significado especial.
Em Londrina, Peixe participou do Grupo de Retalhos, que sob a coordenação do músico maranhense Tião Carvalho levou algumas das riquezas da cultura popular às crianças e jovens do Jardim União da Vitória. No meio da brincadeira musicada, a oportunidade de ampliar a sensibilidade musical e até driblar a timidez. Mais tarde, também vieram as oficinas - agora ministradas por ele - para ensinar jovens carentes a construir instrumentos feitos de material reciclável e também madeira nobre. A sua linha de instrumentos ainda inclui peças para o público infantil, que em Londrina podem ser encontradas na loja Ciranda.
Passados dez anos da sua escolha pela música, Peixe, 38 anos, comemora a abertura em sociedade há um ano da empresa Arubatá Instrumentos, localizada em um barracão em Cambé (Norte), que emprega mais quatro funcionários. O nome de origem indígena ('aru', em tupi guarani, 'sapo pequeno') e africana ('batá', em iorubá, 'tambor de pele') já estampava as pichações que fazia na casa em que morava quando chegou em Londrina.
Sempre em sintonia com o ritmo da vida, Peixe brinca que às vezes ''recebe algumas encomendas do astral''. Sem saber o destino certo, começa a se dedicar na construção de um determinado instrumento e logo o dono simplesmente aparece. Ele também conta que para um instrumento ''nascer'' é preciso que haja duas vontades: a sua e a da matéria-prima. ''Às vezes o processo empaca e aí é melhor dar um tempo para que as coisas aconteçam'', diz. E instrumento pronto que se preze não gosta de ficar esquecido, empoeirado no canto. ''É só mudá-lo de lugar, tirar o pó e dar a ele o devido valor que rapidamente é vendido'', recomenda.
Com força e intenção, Peixe finaliza artesanalmente mais um bumbo leguero que irá seguir para o Rio Grande do Sul. Durante a amarração das cordas ao redor da peça, todo o cuidado que ajudará na afinação do instrumento. No acabamento final, a raspagem delicada e firme do ''miolo'' da pele de cabrito, ainda úmida, para garantir um som potente, que poderá ser ouvido ''a léguas'', daí o nome do instrumento.
Mais informações pelo site www.arubata.com.br

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