CONSTRUÇÃO PEDAGÓGICA - Educação e comunicação criam novos conceitos
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segunda-feira, 27 de março de 2006
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Educomunicação. Para muitos professores, o termo ainda é novo, mas vem conquistando cada vez mais espaço no âmbito educacional como sinônimo de práticas educativas que objetivam uma leitura crítica da mídia associada à apropriação dos meios através da produção na escola de programas de rádio, televisão, jornal impresso e on line. Na semana passada, de quinta a sábado, aproximadamente mil professores paranaenses e de outros estados se reuniram para debater o assunto no ''III Fórum Estadual de Educomunicação do Paraná'' com o tema ''Leitura Crítica da Mídia'', em Bandeirantes (34 km a leste de Cornélio Procópio). O evento foi organizado pela Prefeitura de Bandeirantes, palestras e workshops foram disponibilizados gratuitamente para os participantes.
Em Bandeirantes, a proposta pedagógica da Educomunicação está sendo aplicada desde junho de 2005. Desde então, cerca de quatro mil alunos da rede municipal (Ensino Fundamental, Centros de Educação Infantil e Escola Especial) estão envolvidos em projetos que visam interpretar a mídia de forma multidisciplinar. Além dos alunos, cerca de 150 idosos, integrantes de projeto para a Terceira Idade, participaram de aulas de audiovisual. O resultado foi a produção de um vídeo-documentário intitulado ''Faces'', em que eles contam a história da cidade de uma maneira divertida. O Projeto Bandeirante Mirim órgão que atende cerca de 160 crianças de comunidades carentes também foi beneficiado com aulas de fotografia e audiovisual. O projeto deverá ser ampliado em 2006, com o objetivo de também proporcionar alternativas profissionais aos jovens em situação de risco social.
Entre os palestrantes, na sexta-feira, além de Nita Freire (esposa de Paulo Freire), que falou sobre ''Paulo Freire e a Pedagogia do Encantamento'' e a jornalista Fabíola Vicensoni, que abordou ''Mídia e Responsabilidade Social'', o destaque foi Ismar de Oliveira Soares, 62 anos, que é jornalista e diretor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), além de coordenador do Projeto Educom.Rádio e presidente da União Católica Internacional de Imprensa. Um dos maiores estudiosos do tema na atualidade, Soares ministrou a palestra ''Educomunicação e Cidadania: A Construção de um Campo a Partir da Leitura Crítica dos Meios''.
Soares contou que foi quando ainda era criança que despertou para o potencial de comunicação do rádio. A sua idéia era criar um programa de rádio no pátio da escola, em que estudava no Rio de Janeiro, como forma de ampliar as possibilidades de conversa e expressão. Na época, já encontrou obstáculos com a direção da escola que, de certa forma, considerava a idéia meio subversiva. Mas não desistiu. Anos mais tarde, ajudou a formar o Núcleo de Comunicação e Educação da USP e foi responsável pela implantação do Projeto Educom.Rádio em 455 escolas municipais de São Paulo, durante a gestão de Marta Suplicy (PT). O trabalho envolveu a capacitação de professores e alunos em torno de um projeto que tinha como um dos objetivos diminuir a violência nas escolas ampliando os espaços de comunicação através do rádio nas escolas.
Soares defende a inter-relação entre a comunicação e a educação e que é preciso que os educadores deixem de olhar para a comunicação como ''coisa supérflua ou do entretenimento''. Fugindo da idéia de ''demonizar'' os meios de comunicação, Oliveira propõe práticas de educação para os meios dentro de uma vertente dialética. ''É preciso promover o questionamento, o diálogo com os meios e não reduzir isso a uma visão moralista de certo ou errado'', afirmou.
Ele salientou que a leitura crítica da mídia ainda não faz parte do imaginário do educador, de modo geral, e que muitas vezes os professores se sentem inseguros e desconfortáveis em trabalhar essa temática em sala de aula. ''Os professores são tão consumidores de mídia quanto os seus alunos, eles não estão indiferentes a esse processo, mas muitas vezes há um distanciamento da escola e da mídia, que está sempre avançando'', comentou. ''E é preciso que percebam que comunicação é vida, sentimento, emoção, e não pode simplesmente ser reduzida a um objeto de estudo'', acrescentou Soares.
Soares também expressou ter receio de que o termo ''educomunicação'' seja banalizado. ''Está na moda falar em 'educomunicação', mas esse conceito deve envolver um projeto pedagógico abrangente de uma cultura de resistência que propõe um novo sujeito midiático e uma nova gestão da comunicação'', ressaltou.
Dentro da idéia de ''gestão da comunicação'', Soares gosta de trabalhar com o conceito de ''ecossistema comunicativo''. ''O educador precisa perceber que a própria divisão na sala de aula já é um ecossistema e a educomunicação visa quebrar barreiras para criar mais espaço para a comunicação. Há um ecossistema de relacionamento que pode se transformar em ecossistemas comunicativos.''
O pesquisador admite que não é fácil implantar esse novo conceito no campo da educação, mas acredita na sua possibilidade. ''Os professores não podem mais agir com as cabeças iluministas do século XVIII. Na era da pós-modernidade, na era das incertezas, o melhor é sentarmos para conversar sobre as nossas dúvidas'', ponderou. Mais informações sobre educomunicação podem ser obtidas pelo site www.usp.br/nce ou pelo-email [email protected].


