CONSTATAÇÃO - O cinema brasileiro no fundo das salas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de julho de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 
Sessão das 22 horas, quinta-feira, último horário de exibição em Londrina de ''O Homem que Copiava'', ótimo filme de Jorge Furtado, um dos vários talentos jovens que vêm imprimindo o selo de qualidade ao novíssimo cinema brasileiro. A sala 3 do Catuaí não está repleta, mas o publico é bom, em quantidade e cumplicidade com a excelência do produto que vê na tela. O filme, durante um quase invisível confinamento na cidade, amargou este mesmo horário por sete dias, embora sempre com concorrência de pagantes acima de muita média do similar estrangeiro. Saiu de cartaz a contragosto, enxotado e ''dando gente'', segundo jargão que circula no meio.
Desde ontem, na sessão das 21h30m, o Royal Plaza 2 exibe ''Desmundo'', outro nacional há pouco lançado com sucesso nas capitais. O recomendável filme de Alain Fresnot, uma revisita crítica à episódio de bastidores dos primórdios da história do Brasil, está fadado ao mesmo inglório destino de agonizar no gueto imposto pelo exibidor, que se justifica. Primeiro pelo horário, ponderando que neste tempo de gordas receitas provenientes do menu das férias é preciso garantir espaço para a diversidade infanto-juvenil-adolescente que invadiu a programação. Segundo, porque existiriam poucas cópias dos lançamentos brasileiros, e estas precisariam circular no restante do circuito para cumprir a lei de reserva de mercado.
O poder de convencimento destas alegações não tem lá grande alcance. No caso da programação polivalente para atender apenas clientela em férias, os dois filmes citados têm apelo mais que suficiente para atrair este público específico, de escolares em férias, e ainda promover a diversificação, isto é, seduzir adultos em busca de lazer de qualidade.
''O Homem que Copiava'', em seu estimulante, arejado mix de idéias e formas, é um banquete para, entre outros segmentos, a faixa teen com QI além de ''Panteras'' nenhuma superdotação, portanto. Soa no mínimo muito estranho que filmes brasileiros que foram co-produzidos por multinacionais do setor (a Columbia injetou um bom dinheiro em ambos) tenham sua circulação limitada porque foram tiradas poucas cópias. É bom não esquecer que a multinacional ''amiga'' que co-participa da produção garante também a distribuição, aqui e lá fora. E o nosso realizador-Fausto acaba vendendo a alma: consegue recursos para terminar o filme, mas acaba enfrentando lá na frente uma batalha para tentar garantir a maior visibilidade de seu produto, asfixiado pela concorrência de produções hollywoodianas importadas e distribuídas, sabem por quem? Pela mesma companhia-sócia, no caso a Columbia.
O paradoxo dessa condição enviezada imposta ao cinema nacional é que em 2003, por enquanto, foi o filme brasileiro que garantiu o crescimento efetivo do mercado como um todo. Conferindo: o mercado do cinema no Brasil fechou o primeiro semestre com um publico 17 por cento maior que o mesmo período de 2002, segundo informa o site paulistano Cineweb (www.cineweb.com.br). Em renda, o crescimento foi de 30 por cento. E o filme brasileiro, como era esperado, deu enorme salto: cresceu 236 por cento em numero de espectadores e 310 por cento em renda. Oito milhões e 800 mil espectadores pagaram para ver títulos nacionais no primeiro semestre, sendo que no mesmo período do ano passado este numero foi de 2,6 milhões. O filme estrangeiro apresentou aumento de 3 por cento em publico e 15 por cento em renda. Apesar do ano ter iniciado em queda em relação a 2002, com janeiro e fevereiro decepcionantes, a situação foi revertida com o enorme sucesso de ''Carandiru''.


