Considerações sobre o fazer artístico
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de fevereiro de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
O conceito que a palavra arte pode conter é tão vasto quanto vago, se não tentarmos entender quais são seus limites dentro das possibilidades sempre tão escorregadias que as definições nos propõem. A palavra arte é aplicada tanto para definir um profissional que exerce seu trabalho conseguindo resultados acima da média, quanto quando alguém pinta, desenha, escreve, enfim, cria algo - seja um utensílio, seja uma peça de decoração ou publicitária - com qualidades que podemos chamar de estéticas, tornando o objeto atraente e sedutor, belo, dizemos.
Mas a qualidade da produção artística nem sempre está em seu acabamento, em sua forma final, ou na técnica utilizada em sua confecção, porque nem sempre a arte é expressão de sentimentos, emoções e impulsos interiores, como se a questão fosse revelar a personalidade do artista e a capacidade de sua obra em comover o público. O artista pode querer algo cujo produto final seja impessoal, que seja criteriosamente estabelecido por regras matemáticas, ou até criar obras para serem reproduzidas elétrica ou mecanicamente. Além disto, há artistas cujo interesse é o de evitar qualquer possibilidade de criação de objeto que possa ser considerado como obra de arte. E outros, ainda, que se apropriam de objetos e utensílios de uso cotidiano, simplesmente mudando-os de seus lugares convencionais, deslocando-os das funções para a qual foram criados.
A pintura é uma coisa mental, já falava Leonardo Da Vinci, desde o século 16. Arte é idéia, mas pode ser também a idéia que temos da arte e também a idéia que fazemos da vida, do mundo, como pensava Duchamp no começo do século passado, os artistas conceituais e os artistas das performances e da chamada body art, desde o fim dos anos sessenta. Na realidade, vários caminhos já foram percorridos e cartografados, sendo que no cruzamento de muitos deles, há sempre algo que as gerações e movimentos posteriores acabam incorporando. O que antes era conflito, pode nos chegar transformado em consenso.
A obra de arte como objeto único, dentro das características de certos movimentos, nem sempre foi uma primazia na arte. Falamos de Van Gogh, por exemplo e pensamos em suas pinceladas, na emoção das cores de sua palheta e acreditamos que a função da arte sempre foi a despertar sentimentos, mas desde o movimento futurista italiano, passando pelos construtivistas russos e pela Bauhaus, na Alemanha, a idéia central foi a de transformar o objeto artístico em produto industrial. A beleza, para eles, era criar objetos seriais em larga escala, para que as massas consumissem. Colocar conceitos estéticos na produção da arquitetura, moda, design, publicidade pode não parecer nada romântico - porque não deixa de ser também uma questão econômica - ainda que as aspirações de seus produtores estivessem ligadas a certas utopias e ideologias.
Hoje em dia, passadas tantas histórias em pouco mais de um século, a arte vem ampliando tanto a fronteira entre suas diversas modalidades - unindo dança, teatro, música, literatura, artes plásticas -, quanto vem buscando a criação de uma relação estreita com a vida. Assim, ela busca incorporar não só o uso de suportes e lugares tradicionais onde se espera ver arte, como galerias e museus, mas também ocupando a paisagem da rua, do campo e da cidade e em todos os lugares e situações reais ou virtuais onde menos se acredita em que ela possa estar.
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