Considerações de um jurado de salão de arte
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de novembro de 2001
Rubens Pileggi Sá<br>De Londrina - Especial para a Folha 2 
Com satisfação pelo reconhecimento do trabalho que desenvolvido nesta coluna - mas preocupado com a responsabilidade da missão - aceitei o convite da Secretaria do Estado de Cultura, através do diretor do Museu de Arte Contemporânea de Curitiba, para ser um dos jurados do Salão Paranaense deste ano. Um evento bastante tradicional das artes plásticas no país, já em sua 57 edição.
Pois bem. Quem acompanha os textos da coluna deve ter percebido o pensamento crítico dirigido às instituições oficiais como salões, por exemplo, uma vez que qualidade artística e política de arte acabam sempre mescladas no que se chamaria, idealmente, de julgamento estético. Um lugar sem política cultural não será campo para o desenvolvimento da arte, óbvio. E os salões oficiais, e mesmo os independentes - desde o tempo dos impressionistas, vocês sabem - costumam pregar suas injustiças. Foi montado neste paradoxo que viajei de Londrina a Curitiba para o tal julgamento, juntando-me a outros quatros convidados.
Minha mais presente sensação foi a de me sentir um ser monstruoso ou um deus capenga, diante de mais de 300 propostas inscritas de poéticas e vertentes artísticas diversas, analisadas em sua primeira fase através de fotografias e, na segunda fase, com os trabalhos pré-selecionados já no museu. Prontos para ganhar prêmios ou voltar para o artista.
Um detalhe fundamental é que temos dois dias para avaliar todos os dossiês da primeira fase, e isto quer dizer que o humor, o calor da sala, o clima do ambiente, a análise feita antes ou depois do almoço, etc., são fatores circunstanciais, que influenciam na decisão do júri. Algum trabalho interessante, com toda certeza - e por mais que tudo fosse meticulosamente analisado - deve ter passado despercebido por nós. Por isso peço desculpas a esta ou a este artista, usando as palavras do professor Fernando Bini, também um dos jurados: ''O que temos como conclusão é que é o nosso gosto que lá está, dentro das possibilidades que as obras inscritas nos deram, não é a verdade, sempre falei isso, não resolve o problema, mas deixa minha consciência menos pesada''.
Penso que o maior problema, no caso, é a falta de diálogo entre os artistas e interessados de um modo geral, de um lado, e o poder que ''qualifica'' a obra, do outro lado. E não se trata de compensar a possível injustiça das escolhas com uma aceitação generalizada de todo material enviado. Tampouco contornar a situação democratizando ou concentrando mais os vinte e cinco mil reais destinados aos prêmios.
Como jurado de salão, meu dever é julgar criteriosamente cada trabalho. Mas de resto, não me furto a pensar sobre todo este processo. E a isto corresponde não só fazer uma crítica à estrutura que torna o certame ao mesmo tempo tão rígido e referencial - a ponto de certos artistas criarem suas peças voltados para os salões espalhados Brasil -, mas também apelar à comunidade artística para que se comprometa com o debate sobre os rumos do salão de arte e de toda a política cultural oficial e não oficial, a fim de se manter independente e ao mesmo tempo procurando mecanismos mais justos e democráticos de apresentação, divulgação e desenvolvimento da arte em nosso Estado. Uma boa iniciativa poderia ser liderada pelo próprio museu de arte contemporânea, na ocasião da abertura do salão deste ano. Fica a sugestão.
[email protected]


