São Paulo, 03 (AE) - Alguns dos maiores orquestradores da música brasileira trabalharam na Rádio Record, de São Paulo, entre os anos 40 e os 60. Escreveram arranjos para a grande orquestra da casa, para formações menores, pequenos grupos - de sopros, metais e cordas. Vestiram instrumentalmente a música dos grandes compositores da época (e dos do passado), base para as melhores vozes do tempo. Ocorria assim em todas as emissoras de rádio de grande porte. Tinham suas orquestras e seus orquestradores contratados.
O que terá sido feito do tesouro elaborado por esses mestres? Em geral, perdeu-se. O uso era fugaz. Uma apresentação, ou duas, ao vivo, no auditório. Durante algum tempo, guardavam-se as partituras. Depois, montes de papel, elas eram jogadas fora. Essa foi a regra, nacional - e infelizmente - adotada. Por algum motivo, o acervo de partituras da Rádio Record foi armazenado. Na década de 80, a - já, então - Rede Record pensou em incinerar aquela papelada para a qual não via serventia.
Um funcionário - ficou anônimo - tomou a iniciativa de, em vez disso, entrar em contato com o Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, o Conservatório de Tatuí. A direção do Conservatório mandou buscar as quase 3 mil partirturas. A papelada saiu de São Paulo para Tatuí, onde ficou guardada, intocada, por mais de 20 anos. No fim do ano passado, o diretor do Conservatório, maestro Antônio Carlos Neves Campos, e os também maestros Dario Sotelo e Edson Beltrami resolveram mexer no material.
Estão promovendo sua recuperação, transferindo as partes para o computador. Um trabalho difícil - a umidade, o tempo estragaram boa parte do acervo. São arranjos escritos por Ítalo Izzo, Zico Mazagão, Élcio Alvarez, Gabriel Migliori, Cyro Pereira, Hervê Cordovil, Geraldo Mendonça e Henrico Simonetti. Cyro Pereira é quem ainda está em atividade, à frente da Orquestra Jazz Sinfônica, da qual, em 1990, foi co-fundador.
"Trabalhávamos numa fábrica de música", conta Cyro Pereira, que é professor de Orquestração na Universidade Estadual de Campinas. Ele trabalhou na Rádio Record durante 24 anos, a partir de 1950 (sua estréia profissional se deu em 1947). "Eu era um operário", lembra. "Batia cartão de ponto e trabalhava com prazos estreitos, às vezes mais de 15 horas por dia", diz. Não se queixa. Aprendeu muito com mestres mais experientes, desenvolveu a prática da escrita.
Era um privilégio trabalhar, por exemplo, ao lado de Hervê Cordovil e Gabriel Migliori. Sua queixa era uma só: o esquecimento desses nomes e daquele trabalho. Fundo musical - Nem sempre eles escreviam arranjos para as músicas (ou as apresentações) de Ari Barroso, Altamiro Carrilho, Sílvio Caldas, Zequinha de Abreu, Herivelto Martins, Noel Rosa. Eventualmente, compunham fundo musical para as vozes dos locutores da casa - Blota Júnior, Hélio Ansaldo, Randal Juliano, entre eles.
"Existe falta de arranjos de música brasileira para grupos musicais", diz o maestro Antônio Carlos Neves Campos. "A recuperação é importante e vamos pôr o material à disposição dos músicos de todo o País". E, não diz, também dos músicos estrangeiros que dão aulas em Tatuí. O maestro Neves acredita que seja o maior acervo de arranjos já reunido.
Há concertos previstos, em datas a serem determinados, para o lançamento do primeiro lote de partituras recuperadas, a partir deste mês. E imagina-se colocar o material à disposição dos interessados pela Internet.

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