Curitiba - No mês em que comemora dez anos de fundação, o Conservatório de Música Popular Brasileira (CMPB) de Curitiba se prepara para mudanças na sua administração. Numa iniciativa inédida em organizações culturais do Paraná, deixará de ser administrado pela Fundação Cultural de Curitiba (FCC) para ser conduzido por uma entidade privada. A notícia vem se arrastando há pelo menos um ano e deve se concretizar no próximo semestre, segundo confirmou o presidente da FCC, Cássio Chamecki.
Quando foi anunciada, no final do ano passado, a mudança provocou tumulto entre professores e funcionários do local. Uma reunião chegou a ser marcada pelo presidente da FCC para amenizar as discussões e informar que a transferência de administração tinha o objetivo de otimizar o espaço, agilizar contratações e também as programações dos eventos. Em entrevista à Folha, Chamechi manteve o discurso.
''O município permanece com o domínio da política cultural, vai traçar as metas, mas a entidade privada vai executar a programação'', explica, afastando os questionamentos de que com a mudança, o poder público estaria se eximindo da responsabilidade de promover eventos culturais e manter os cursos (e os funcionários) do conservatório. Na prática, uma Organização Social é criada para dar uma certa autonomia financeira para a instituição e também como uma forma de regularizar a situação dos professores contratados sem concurso, o que é irregular.
A prefeitura já tem uma experiência nesse sentido. No ano passado repassou para uma Organização Social o controle do Instituto Curitiba de Informática (ICI). É com essa experiência ainda que em organizações extremamente distintas que Cássio justifica a mudança do Conservatório. ''No ICI, a mudança deu certo'', salienta. Uma Organização Social é formada por uma entidade sem fins lucrativos, cujos membros são indicados pelo prefeito.
Para Chamecki, a alteração não seria algo imperceptível para o público. ''A medida que esperamos dar maior mobilidade financeira para o conservatório, o público deve sentir alteração na programação oferecida'', revela dizendo acreditar que essa programação deve se ampliar. Mas a verba destinada ao espaço não tem previsão de ser ampliada.
A FCC criou uma comissão para analisar os recursos repassados nos últimos anos para o conservatório e, após a Organização Social ser criada, deverá repassar a mesma verba. Chamecki informa que esses valores ainda estão sendo avaliados. Para se ter uma idéia, toda a Fundação trabalhou o ano passado com recurso de R$ 13 milhões, dos quais R$ 7,5 milhões foram repassados para a folha de pagamento e somente o restante destinado à programação cultural. ''É pouco, esse valor vai ter que aumentar'', admite o presidente da FCC.
Essa também é uma das reivindicações do novo diretor artístico do CMPB, Sérgio Albah. ''Queremos dar continuidade ao que está acontecendo, mas ao mesmo tempo buscar mais recursos para trabalhar'', diz Albah que há um mês assumiu o cargo de Roberto Gnatalli, um dos fundadores do conservatório. O novo diretor artístico prefere não comentar à respeito da transformação do conservatório em Organização Social. ''Isso já vem sendo discutido há tempos, mas não estou por dentro das mudanças'', diz preferindo resssaltar por enquanto a importância do espaço para a cidade.
O conservatório foi fundado em julho de 1992 com o objetivo de ser um centro de ensino e pesquisa da música popular. Atualmente oferece cerca de 50 cursos regulares, tem aproximadamente 500 alunos matriculados e 25 professores. Além disso, mantém a orquestra de sopro e cordas, o Vocal Brasileirão, o Coral Brasileirinho e também os projetos artísticos, como as apresentações musicais.
Em dez anos, o espaço atendeu 341.771 pessoas, realizou 776 cursos com 15.706 matrículas; 816 apresentações com público de 308.186 pessoas e atendeu 17.879 pessoas na biblioteca e fonoteca do espaço. O receio de alguns músicos da cidade é que toda essa promoção esteja ameaçada com a transformação do conservatório em Organização Social.
A diretora pedagógica do CMPB, Zélia Brandão, diz que essa não é a principal preocupação no momento. ''Estamos tentando regularizar esses cursos, já que eles ainda não são reconhecidos'', informa. A nova direção do conservatório quer também intensificar as atividades realizadas. Para isso, já implantou seis novos cursos. ''O espaço funciona bem, mas tem uma demanda maior e que queremos atender'', conclui Zélia.
SERVIÇO: O Conservatório de Música Popular Brasileira fica na Rua Mateus Leme, 66, no Largo da Ordem. Informações sobre cursos e eventos podem ser obtidas pelo telefone (0xx41) 321 3208

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