Todo mundo sonha. Acordado ou dormindo. Crianças, geralmente, sonham em navegar em mares de guaraná e escalar montanhas de chicletes. Adultos, de maneira geral, sonham em represar rios de dinheiro e chegar de helicóptero a um hotel no alto da montanha.
Sonhos são instigantes. Os mais interessantes não são aqueles que ocorrem quando dormimos, mas aqueles que acalentamos quando acordados. Os que não se apagam quando acordamos, ou deixam de existir quando dormimos. Esses são exatamente os mais difíceis de serem realizados – e os de maior valor.
Ter um sonho não significar que um dia será concretizado. Existe a possibilidade, mas não a certeza. E perder um sonho é como perder uma parte do corpo, ou mesmo um pedaço da alma. Tudo fica chato, nublado, meio escuro. Dessa maneira, a história de uma criança pode ser a história dos sonhos que ela deseja realizar. E a história de um adulto pode ser a história dos sonhos que ele não conseguiu realizar.
Em seu novo livro, ‘‘Trezentos Parafusos a Menos’’, o escritor Ricardo Azevedo entra nesse assunto pouco usual em romances infanto-juvenis. Para isso utiliza uma perspectiva atual. Lançado pela Companhia das Letrinhas com ilustração de Mariana Massarani, a obra conta a história de Tatiana, uma garota que acha o pai um tremendo mala sem alça. Uma chato de galocha repleto de manias esquisitas e metódicas. Infeliz no trabalho, o pai levava uma vida apática. Tatiana desejava ter um pai que trabalhasse em algo que gostasse, que tivesse alguma alegria, que o peso do salário não fosse tão pesado.
Mas, certo dia, um fato mudou o cotidiano da família. Ao receber uma herança inesperada, o pai de Tatiana resolve mudar radicalmente de vida. Pede demissão do emprego de contador e começa a se dedicar a não fazer nada. Começa um treinamento intenso para virar estátua, ou seja, ficar horas parado, numa mesma posição, sem me mover.
Para Tatiana, as mudanças não foram para melhor. Ter um ‘‘pai estátua’’ era pouco diferente de ter um ‘‘pai mala’’. Ela então resolve falar o que pensa, o que sente, e solta os cachorros num desabafo emocionado. A partir desse episódio, todos passam a refletir sobre a vida e cada um, a seu modo, encontra a origem do drama.
Tatiana descobre que nasceu no momento em que seus pais, ainda jovens, abandonaram os próprios sonhos. A sobrevivência, como uma pedra no sapato, falou mais alto. Na verdade, o pai desejava ser músico. A mãe, enfermeira. Mas ocorreu do jeito contrário do que imaginaram. Resgatar os sonhos perdidos torna-se, então, o objetivo comum, uma tentativa de felicidade.
Em ‘‘Trezentos Parafuso a Menos’’, Ricardo Azevedo toca num assunto que geralmente não recebe atenção. De um lado, pais que não colocam fé em seus próprios sonhos pessoais e acabam tornando-se pessoas amargas a ponto de causar repulsa nos filhos. De outro lado, filhos repletos de sonhos que vivem num ambiente onde os sonhos dos pais foram esmagados sob o argumento de que, para criar os filhos, tiveram que abrir mão dos sonhos.
Seria mais interessante se a história de uma criança, bem como a de um adulto, fosse a história dos sonhos realizados, ou dos sonhos que gostariam de realizar.
Serviço:
‘‘Trezentos Parafusos a Menos’’ de Ricardo Azevedo, ilustrações de Mariana Massarani, Editora Companhia das Letrinhas, 144 páginas, R$ 17,00.

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