Dalton Trevisan, o maior contista brasileiro vivo - ele discorda deste epíteto -, tem uma voz grave e suas palavras parecem ser minuciosamente articuladas. Passos rápidos e uma agilidade incomum para alguém de 83 anos também se destacam na figura do escritor, durante nossa caminhada pelo bairro Alto da Glória, onde ele reside. Em frente à casa do homem que compõem seus contos sobre estupros, assassinatos e fetichistas sexuais, existe um templo evangélico.
O ''Vampiro de Curitiba'', apelido que recebeu devido ao livro homônimo, lançado em 1965, não concede entrevistas há cerca de três décadas. As fotos existentes em livros didáticos e as imagens reproduzidas nos meios de comunicação geralmente remetem aos anos sessenta e setenta. Tal como o vampiro foge do alho e da cruz, Dalton Trevisan apressa o passo de suas caminhadas matinais quando é perseguido por jornalistas ou fotógrafos.
O recluso escritor vive em uma casa grande e antiga, cercada por muros altos e árvores que impedem qualquer pessoa de tentar observá-lo. Um imenso jardim, cortinas macilentas e ausência de qualquer barulho dentro da casa, garantem um aspecto aterrorizante à morada do ''Vampiro''.
''Eu nunca vi a pessoa que mora naquela casa. É comum a gente ter que chamar a polícia para tirar os bêbados que ficam no muro dela. É tão esquisita'', comenta Gislaine Michetti, secretária de uma escola de idiomas, próxima à casa do escritor.
Em uma manhã deste janeiro, Dalton Trevisan deixa sua casa por volta das 10 horas e 40 minutos, vestindo uma jaqueta cinza por cima de uma camisa azul, calça bege, boné branco e, nos pés, um tênis de modelo esportivo. O escritor atravessa ligeiro, a movimentada esquina de sua casa, e pára ao ser chamado pelo nome. Enquanto autografa tranquilamente os dois exemplares que eu lhe mostro, revelo que estudo Letras, em Maringá, no interior do Paraná, e que sonho em ser escritor. Mas omiti ao contista que também estudo Jornalismo.
Questionado sobre como pretende ser lembrado daqui a oitenta anos, Dalton Trevisan ironiza: ''Daqui a oitenta anos, ninguém se lembrará de mim''. E não adiantou tentar contrariá-lo, reconhecendo que ele é, de fato, o maior contista brasileiro vivo: ''Essa sua opinião é uma opinião isolada'', dispara.
Caminhamos, a pedido dele, pela rua de sua casa. Seus roteiros, alterados com frequência para evitar curiosos, sempre incluem a livraria do Chain, local em que o escritor troca mensagens com sua editora e recebe pedidos para autógrafos.
Sobre indicações de obras e autores, Dalton Trevisan revela sua listinha. ''Cartas A Um Jovem Poeta'', do escritor alemão Rainer Marie Rilke (1875-1926), é a primeira indicação. ''Nas cartas dedicadas ao jovem poeta, ali está tudo o que você pode aprender sobre inspiração, escrita e linguagem'', diz Dalton Trevisan. Em seguida, classifica ''A Metamorfose'', do alemão Franz Kafka (1883-1924), como ''uma história incrível'' e afirma que ''A Morte De Ivan Ilitch'', do literato russo Leon Tolstoi (1828-1910), é ''a melhor novela já feita''.
Preocupado, indaga se vou conseguir lembrar dos conselhos. Ao notar que começo a escrever na última página de um de seus livros, sugere pedir um papel na livraria do Chain. Ao adentrá-la, cumprimenta os funcionários e, antes de continuar com as indicações, pede a uma mulher que encontre os exemplares de ''Cartas A Um Jovem Poeta'' e ''A Morte de Ivan Ilitch'', nas edições de bolso L&PM Pocket. Antes de prosseguir com a listinha, avisa: ''Vou te dar esses livros''.
''Leia tudo o que puder do russo Anton Tchekhov (1860-1904). Aliás, existem boas coletâneas sobre ele'', observa Trevisan. E não são apenas escritores estrangeiros que o contista elogia e indica. O poeta pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968) é seu predileto: ''O estilo e a linguagem dele são maravilhosos. As crônicas também são boas. Leia 'Crônicas da Província do Brasil' e 'Os Reis Vagabundos'''.
Para Dalton Trevisan, as crônicas de Machado de Assis (1839-1908) são boas, mas os contos são melhores. ''Machado de Assis é o maior contista brasileiro. Além dos contos do Machado, leia 'Quincas Borba', 'Memórias Póstumas de Brás Cubas' e 'Dom Casmurro''', aconselha, antes de indagar: ''Você gosta de Rubem Braga?''. A última obra literária citada, ''Madame Bovary'', de Gustave Flaubert (1821-1880), é ''maravilhosa'', segundo o contista.
Dalton Trevisan me presenteia com ''Cartas a um Jovem Poeta'' e ''A Morte de Ivan Ilitch'' - Kafka e Tchekhov, autores solicitados por Trevisan, estavam em falta na livraria. O ''Vampiro'' seria capaz de reescrever essas obras melhor do que os próprios autores? Negativo: ''Ninguém pode reescrever 'A Metamorfose', melhor do que o Kafka. Ninguém vai reescrever 'A Morte de Ivan Ilitch', melhor do que Tolstoi escreveu'', diz Dalton Trevisan.
Em seguida, o escritor sorri, estende a mão e se despede. Caminha alguns metros e, contornando o prédio da Reitoria da Universidade Federal do Paraná, desaparece pelas ruas da cidade que ele mitificou. Cinco horas depois, desta vez, sozinho, Dalton Trevisan refez o trajeto, incluindo, é claro, uma rápida
passagem pela livraria.

Sugestão de legenda para Dalton imagem 1:
PARADA OBRIGATÓRIA: Dalton Trevisan é flagrado dentro de uma livraria, em Curitiba, por volta das 16:00 horas.

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