‘‘Sempre gostei dos trabalhos de Glória Perez e acho que ela fez uma novela bem elaborada, com uma forma eficiente de tratar do assunto das drogas. Hoje, o usuário procura todas as formas possíveis para se livrar do vício e acredito que esse foi um serviço de conscientização bem feito. Mostrou a que nível de desespero podem chegar os viciados – claro, há os mais controlados. Agressivos, requerem tratamento específico para se reintegrar à sociedade. Na minha opinião, os usuários se identificaram com os personagens reais e fictícios da novela. Eu nunca fui tão fundo no vício, mas em cada depoimento identificava um pedacinho de uma experiência minha. Quando a gente é dependente, acha que tudo e todos estão errados. Só quando se cura é que vê como fez as pessoas sofrerem... O viciado geralmente vai para as drogas por causa de algum problema. E as primeiras vezes são muito gratificantes, você se sente bonito, valorizado, forte. No fim, não come, não dorme, se porta como um mendigo. Eu tive essa experiência. Na década de 80, era usuário de maconha e cocaína. Usava mais nos finais de semana e em festas. Fui para a Europa, trabalhar como profissional do sexo, e comecei a usar as drogas como ‘‘ferramenta de trabalho’’. Em Madri, conheci a heroína. Eram mais de US$ 250 por noite. A gente tinha crédito e até conta com os traficantes e, para pagar, tirava dinheiro das economias. No início eu apenas cheirava a droga, depois passei a fumá-la como crack. Foram dois anos nessa vida. Passei por uma fase difícil - que tem o efeito de um começo de pneumonia - com febre, suor e uma dor terrível no corpo. Tinha vontade de parar. Mas não é fácil se o usuário não estiver a fim. De volta ao Brasil, em 89, consegui me reestabelecer do vício em três meses. Passei por atendimento psicológico e contei com ajuda de amigos, mas não cheguei a ser internado em clínicas. Hoje, reintegrado à sociedade, sou um cidadão respeitado’’.
Edison Bezerra, 42, coordenador geral da ADE-FIDAN - Casa de Vivência Sara Santana (prevenção das DST, Aids, Cidadania e profissionalização de HSH (homem que faz sexo com homem) e travestis).




‘Parei de cheirar no susto’
‘‘Coincidentemente, às vezes em que parava para acompanhar o folhetim da Glória Perez, sempre tinha depoimentos de dependentes e ex-dependentes químicos. Alguns deles realmente me tocavam. Quanto à personagem Mel, de fato existe usuários com aquele perfil, mas minha experiência com a cocaína não chegou àquele ponto. Como a novela explorava essa causa social creio que a autora ou a direção, claro, caprichava nos depoimentos e também no drama da personagem. Como se trata de um folhetim a maneira com que abordaram a questão das drogas ficou comprometida. E aí minha pergunta: se é ficção, quem me garante que a maioria dos depoimentos também não tiveram falas dramatizadas? Até que ponto a autora interveio de fato na realidade? Esse é meu questionamento. Eu comecei a utilizar cocaína ocasionalmente. Era jovem, gostava das aventuras e personagens que a noite oferece. Quando cheirava, sentia um bem-estar incrível. Mas a ressaca, os efeitos colaterais do dia seguinte – e junte-se a isso o farto consumo de bebida – eram terríveis. Passei a consumir cocaína com mais frequência. Durante um ano inteiro cheirei pra caramba. Dei um tempo, mas logo voltei com a corda toda. Chegou ao ponto de cheirar todos os dias e não ter condições de sair à noite sem dar uma cafungada. Às vezes batia o arrependimento, mas estava embalado demais para parar. Prossegui nessa vida durante dois anos. Caprichava no final de semana. Um dia, numa quinta-feira, estava em casa e resolvi cheirar. E beber. Tive taquicardia, suava gelado, quase desmaiei. Com medo, saí para a rua e fui para um bar onde, se acontecesse alguma coisa, teria ‘amigos’ prontos a me socorrer. Parei de cheirar no susto, com a notícia de que um amigo das baladas estava gravemente doente. A primeira reação foi cheirar. Enlouqueci. Entrei em crise de paranóia. Depois passei a ficar só na bebida, para aliviar a ansiedade. Foram vários dias assim. No meu caso consegui sair porque queria viver. Estou sem usar cocaína há quase 10 anos. Hoje não consigo nem sentir o cheiro de maconha. Eu consegui, mesmo que tenha sido através de outra dor’’.
Júlio Silveira (nome fictício), 35, empresário

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