CONSCIENTIZAÇÃO - A reconstrução da identidade negra
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terça-feira, 05 de outubro de 2004
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
''Quando a minha pele vai ficar branca? Quando o meu cabelo vai ficar liso?'' Indagações como essas, feitas por crianças negras de 1 a 4 séries de escolas públicas de Londrina, ainda assustam e preocupam o professor de educação física Edmundo da Silva Novais. Tal situação é um estímulo ainda maior, segundo ele, para continuar o seu trabalho sobre a conscientização do negro brasileiro. Sobre a polêmica em torno do sistema de cotas para negros nas universidades na UEL começa a valer já no próximo vestibular, com 20% das vagas para negros e 20% para alunos de escolas públicas Novais é categórico: ''O negro que é contra as cotas está pensando como branco, que finge não ver as diferenças, e precisamos mudar essa mentalidade. É muito difícil o acesso do negro ao ensino superior e é urgente darmos um salto para diminuir essa defasagem. As cotas são uma medida de emergência. Muitas pessoas falam que o sistema de cotas privilegia o negro, que poderia assim ter um nível de concorrência menor, mas não se ouve as pessoas falarem na mesma proporção sobre os vestibulares em instituições particulares, que poderiam ser considerados um outro tipo de privilégio'', afirmou.
Segundo Novais, vivemos no Brasil um preconceito camuflado, uma ''falsa democracia social'', que é muito mais prejudicial do que o declarado, como nos Estados Unidos. ''Lá, pelo menos foram construídas escolas para negros; diferente do Brasil, que nunca oportunizou o acesso adequado do negro à educação e na década de 70 destinava vagas, sem exigir exame de vestibular, para os filhos de fazendeiros, na chamada 'lei do boi''', disse. ''Foram 380 anos de escravidão que contribuíram para a desconstrução da identidade do negro, até com o apoio da igreja, que chegou a afirmar que o negro não era filho de Deus, que não tinha alma.''
''Os negros norte-americanos sempre souberam que eram excluídos e tiveram que se fortalecer para conseguir manter as suas bases culturais e raciais. No Brasil, como não houve essa luta de identidade racial, o negro adormeceu e ficou passivo das dificuldades'', acrescentou Novais.
Outra mentira histórica denunciada por Novais, e ainda muitas vezes ensinada na escola, é a de que os negros seriam submissos e gratos por servirem os brancos. ''Existem muitas histórias que não são contadas e nas escolas pouco se fala sobre as inúmeras rebeliões que aconteceram no Brasil inteiro, inclusive no Paraná, onde costuma-se dizer que não houve escravidão'', ressaltou.
Filho de pais baianos, de origem humilde, Novais conta que desde cedo aprendeu com o pai a importância do ensino. Quando era criança, observava que na sua casa não se cultivava elementos culturais afro-brasileiros. ''Assistia aos filmes de artes marciais na televisão e isso sempre me recordava a capoeira. Queria aprender aquela arte, mas mesmo sendo de uma família de negros, ninguém em casa sabia capoeira'', contou. Novais acabou indo fazer aulas de capoeira com o mestre Lampião, e afirma que foi através dela que melhorou sua auto-estima. A capoeira também teve influência na sua escolha profissional, já que se tornou professor de educação física, após passar no segundo vestibular da UEL.
Casado e pai de um filho de seis anos, Novais disse que ele já está sendo orientado a perceber situações de preconceito. ''Ele conta quantos negros têm na novela, nos filmes, observa os papéis que realizam, e comenta quando acha que alguém está agindo de maneira preconceituosa ao negro'', destacou Novais.
NÚMEROS
- 87% das crianças fora da escola são negras
- 47% dos estudantes negros completam o 2º grau
- 1% dos estudantes negros completam o 3º grau
- 80% dos moradores em favelas e locais insalubres são negros.
Fonte: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) - 1999/2000


