CONSCIÊNCIA NEGRA - Rainha Jinga é exemplo da raça
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de novembro de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Durante esta semana, muitas escolas devem estar estudando a história do Zumbi dos Palmares já que no próximo dia 20 comemora-se o Dia da Consciência Negra, quando relembramos a morte do herói negro da luta pela liberdade que foi assassinado no dia 20 de novembro de 1695, em região de Pernambuco, que hoje pertence a Alagoas. Mas o que muitos provavelmente não saibam é que a sua história de resistência é fruto de uma linhagem de um povo guerreiro, os jagas, em que uma mulher foi o grande destaque.
Conhecida como ''Rainha Jinga'', embora preferisse que os seus súditos a chamassem de ''Rei'', ela nasceu em 1583, na região conhecida como Angola, de onde vieram os primeiros escravos para o Brasil. Esbelta, magra, de cabelos curtos sobre as orelhas, a rainha Jinga conseguiu até a sua morte resistir ao domínio do povo português. Ela até tentou fazer alguns acordos de paz com os portugueses, mas não mediu esforços para treinar pessoalmente tropas de homens e mulheres na luta pela preservação da liberdade. Composto por ''ninjas africanos'', como os componentes do seu exército ficaram conhecidos, a sua tropa era exímia em construir e usar vários tipos de facas de arremesso para se defender, não ficando atrás do domínio demonstrado pelos ninjas japoneses.
Famosa pelo brilhantismo das suas táticas militares característica que também marcou a vida de Zumbi , a rainha Jinga morreu naturalmente em 17 de dezembro de 1663, aos 80 anos, em Angola. Quase 32 anos depois, Zumbi é assassinado, provavelmente com menos de 40 anos, no Brasil. Dois exemplos que marcam a resistência de um povo, apesar dos inúmeros massacres sofridos.
''É muito importante que a comunidade negra conheça a fundo a própria história e tenha orgulho desses personagens. Estudos históricos indicam que é muito provável que os antepassados do Zumbi tenham sido da linhagem dos jagas, a mesma da Rainha Jinga, povo guerreiro que causa admiração até hoje'', comenta a antropóloga Elena Andrei, que lembra que antes do processo de escravidão, algumas cidades africanas eram maiores que as européias e bem desenvolvidas. Um exemplo é a cidade de Lagos, que era cercada por muralhas tão grossas que dava para duas carruagens passarem como se estivessem em pista de mão dupla.
Os estudos mais recentes sobre Zumbi apontam que ele foi provavelmente traído por um dos quilombolas que pertenciam ao seu grupo. Após enfrentar uma luta de guerrilha chefiada pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que envolveu mais de três mil homens e provocou a morte de cerca de 200 negros e o aprisionamento de 600, Zumbi fugiu para mata com pouco mais de 20 homens. Um dos integrantes do grupo, após ser torturado, aceita levar a tropa, agora sob o comando do capitão André Furtado de Mendonça, até o covil de Zumbi. Lá, em uma cena que lembra a traição de Judas, Zumbi teria sido abraçado pelo quilombola traidor e literalmente apunhalado pelas costas. ''Essa é uma imagem crística e apesar do horror, acho que demonstra até uma tentativa do quilombola traidor evitar que Zumbi fosse torturado'', destaca Elena. Depois da sua morte, o seu corpo foi esquartejado. Sua cabeça foi salgada e levada para Recife, onde apodreceu em praça pública. Tal forma de punição demonstra o tamanho do perigo que Zumbi representava para a corte portuguesa.
Tradicionalmente conhecido como sobrinho de Ganga Zumba, embora isso ainda não tenha sido historicamente comprovado, Zumbi teria assumido o Quilombo dos Palmares, após a morte do ''tio'', que teria aceito acordo com a coroa portuguesa em que devolveria os negros fugitivos e daria liberdade aos nascidos no quilombo. Zumbi não teria aceito este acordo e há algumas versões que dizem que ele mandou assassinar Ganga Zumba, o que também não foi comprovado. O que sabemos de fato é que muito jovem Zumbi assumiu o Quilombo, que significa ''acampamento militar'', e tem origem no tronco linguístico bantu. ''A passividade diante da escravidão nunca fez parte da história dos negros'', lembra a antropóloga.
E de um povo de forte resistência, que enfrentou cerca de 300 anos de escravidão, hoje temos no Brasil diversar heranças como o samba, o sincretismo religioso, o gingado (que também tem origem na língua bantu) e as delícias da culinária africana. ''Os negros devem se orgulhar cada vez mais da própria história. O Brasil seria muito sem graça se não houvesse a influência cultural dos africanos e não teria se constituído sem a força do trabalho dos negros. E é bom que todos se lembrem que Zumbi não lutou apenas pela liberdade dos negros. A sua luta era maior e influenciou o sentido universal de liberdade'', ressalta a antropóloga Elena Andrei.


