CONSCIÊNCIA NEGRA - Aprendendo a reeducar o olhar
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terça-feira, 24 de novembro de 2009
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Em 2003 a professora Celiana Lucia da Silva foi vítima de preconceito por parte de duas alunas. As ofensas geraram um processo judicial que resultou na condenação das estudantes, que tiveram que pagar cestas básicas. A experiência foi marcante e chamou a sua atenção para a complexidade da questão do preconceito racial no Brasil: O que mais me chocou é que elas eram afrodescendentes, lamenta.
Depois do ocorrido e no mesmo ano da aprovação da Lei 10.963 que obriga o ensino da história africana e afro-brasileira nas escolas e inclui o dia 20 de novembro no calendário escolar como o Dia Nacional da Consciência Negra , ela resolveu promover no colégio em que trabalhava uma série de eventos para valorizar a cultura negra e resgatar a autoestima dos afrodescendentes. Capoeira, debates e desfiles com alunas negras fizeram parte das suas ações.
Hoje, lecionando matemática no Colégio Estadual Professora Roseli Piotto Roehrig, na Região Norte, Celiana mantém o debate da igualdade racial. E na prática do seu dia a dia sempre procura trabalhar a temática. E o tema dá para ser trabalhado nas aulas de Matemática, sim. Um dos pontos que abordo é que os gregos foram estudar com os egípcios, que fazem parte do continente africano, para desenvolver os famosos teoremas matemáticos, comenta.
Mais especificamente para a Semana da Consciência Negra, realizada na semana passada, Celiana exibiu para os seus alunos de 5ªe 7ªséries o filme Quase deuses, que conta a história verídica de Vivien Thomas, assistente negro do cardiologista Alfred Blalock e que conseguiu revolucionar a cirurgia cardíaca no auge da segregação racial nos Estados Unidos, sendo reconhecido como médico apenas no final da vida.
Após o vídeo, os alunos também puderam partilhar experiências pessoais em que sofreram preconceito. Acho muito importante esse trabalho, principalmente entre as crianças de periferia, onde há uma concentração de afrodescendentes e a baixa autoestima é comum. É preciso falar do assunto, trazer referenciais positivos da raça negra e mostrar a riqueza e influência da cultura africana no nosso cotidiano, ressalta.
Integrando a programação do II Simpósio de História e Cultura Afro-Brasileira, os alunos do Colégio Estadual Professora Olympia Morais de Tormenta, na última quinta-feira, tiveram a oportunidade de refletir sobre o tema. Na abertura, o professor Edmundo Silva Novais, da APP Sindicato, falou brevemente sobre o fenômeno histórico da discriminação, os 380 anos de escravidão no Brasil e da invisibilidade do racismo na sociedade. Destacando o papel transformador do estudante, ele pontuou a importância da construção da identidade do negro como integrante da sociedade. Uma palestra com o advogado Oscar do Nascimento, um dos pioneiros do movimento negro em Londrina, também estava programada.
Em seguida, os alunos assistiram ao curta-metragem Vista Minha Pele, do cineasta Joel Zito Araújo, em que há uma inversão social do preconceito: uma aluna branca e pobre que sofre preconceito em uma sociedade em que predominam pessoas negras e ricas.
A parte mais esperada pelos alunos foi o desfile de roupas africanas organizado pela professora Tatiana Bispo. De repente, a quadra do ginásio da escola se transformou em passarela, com dezenas de alunos afrodescendentes exibindo com orgulho as vestimentas inspiradas na cultura africana. Diante de uma plateia animada, aplausos e gritos de incentivo.
Confeccionadas pelo Grupo Africanidades grupo de estudo criado há três anos por educadores e que enfoca a sua pesquisa no vestuário e na culinária africanas , as roupas impressionaram pela beleza e pelas cores fortes. Procuramos com esse trabalho destacar a beleza do negro. A cultura africana é bem complexa e as roupas também trazem informações sobre ela. Toda mulher africana bem vestida usa um turbante e há diferentes maneiras de amarrá-lo, explica a professora Sonia Maria Rodrigues de Macedo, integrante do grupo.
A coordenadora Leila Andrade, do Núcleo para a Educação das Relações Étnico-raciais e Afrodescendência (Nereia/Núcleo Regional de Educação), salienta a importância dessas ações serem realizadas no ambiente escolar. A escola é o espaço ideal para esse tipo de discussão. Infelizmente, o preconceito está naturalizado e precisamos reeducar o olhar e o ouvir. E a conscientização sobre o assunto é uma forma de fomentar mudanças sociais, argumenta.
A programação do simpósio incluiu exposição de fotos e apresentações culturais no último final de semana e se estende até 5 dezembro. Fazem parte também da organização do evento a Secretaria de Gênero e Diversidade Étnico-racial da APP Sindicato, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da UEL, a Universidade Sem Fronteiras e o Coletivo de Promoção da Igualdade Racial da APP Sindicato.


