CONSCIÊNCIA DE CLASSE
CONSCIÊNCIA DE CLASSE Com Nenhum a Menos, um melodrama neo-realista, Zhang Yimou se enquadra no regime chinês e vence em Veneza O diretor Zhang Yimou, entre dois atores não profissionais, está bem distante da rebeldia que o projetou Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha2 Cannes-99 não quis selecionar Nenhum a Menos (veja a programação de cinema nesta página) porque é um filme que reenquadra o diretor Zhang Yimou na ordem político-social da China pós-comunista, vale dizer, pobre e e ainda sem saber lidar muito bem com o capitalismo. Quatro meses depois, mais neoliberal, Veneza-99 dava a Yimou o prêmio máximo, o segundo Leão de Ouro de sua carreira. Embora o filme seja interessante, amável, com um roteiro primoroso a ser imitado, o diretor de títulos inconformistas como Sorgo Vermelho, Lanternas Vermelhas e A História de Qiu Ju era bem melhor quando exercitava o realismo crítico. Agora, neo-realista... Nos confins rurais do território chinês, Wei, uma garota de 13 anos, é levada a substituir a professora de uma pequena vila que foi atender a mãe doente. Sem a aprovação do prefeito local, ela é conduzida a esta missão impopular. Sem carisma mas obstinada, Wei (interpretada por uma professora rural, da mesma idade e com o mesmo nome) cuida com mão de ferro de seus 28 pequenos alunos. Um dos garotos, teimoso, vai causar o grande problema. Ele foge para a cidade, atrás de dinheiro para pagar dívidas de família. Inconformada, Wei vai atrás e o filme começa de fato. A meio caminho entre o documentário e a ficção, trabalhando com atores não profissionais e recursos visivelmente franciscanos, por vezes fazendo lembrar o estilo dos mestres italianos do neo-realismo, Yimou não disfarça que aqui está bem distante da rebeldia de tempos nem tão distantes. O recado de Nenhum a Menos é de aceitação e enquadramento na sociedade onde vive. É preciso buscar o rebelde e mantê-lo em classe. Na cidade grande, Wei submete-se aos burocratas (contra quem a jovem Qiu Ju tinha lutado). Neste sentido, o filme é uma surpresa pouco apreciável. Ao final, resta a impressão de termos visto uma orquestrada parábola apesar de todos os amadores em cena sobre quem está de fato no comando na China contemporânea.





