Conjunção de estrelas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de janeiro de 1998
Beth Néspoli 
Agência Estado
Reprodução
Fernanda Montenegro, Bibi Ferreira e Marília Pêra: três estrelas de primeira grandeza vão atuar em espetáculos diferentes
Marcado pela dramaturgia de Brecht e Chekhov, o ano teatral de 1998 apresenta uma rara e fascinante conjunção de estrelas. Como havia muito não ocorria em nossos palcos, estarão atuando simultaneamente as três maiores atrizes brasileiras: Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro e Marília Pêra. Não na mesma peça, seria pedir demais, mas a simples presença de cada uma delas garante a qualquer espetáculo o rótulo de imperdível.
Marília Pêra viverá a prostituta Geni em Toda Nudez Será Castigada, de Nélson Rodrigues, com direção de Moacyr Góes. Bibi Ferreira dirige e atua com Gracindo Júnior em Brasileiro, Profissão: Esperança, um musical sobre a vida de Dolores Duran e Antônio Maria, com roteiro de Paulo Pontes. Fernanda Montenegro será dirigida por Daniela Thomas em A Gaivota, de Chekhov.
A Gaivota não será a única montagem do autor russo em nossos palcos. O interesse pela dramaturgia de Anton Chekhov (1860-1904) será uma das características da cena teatral neste ano. Nada menos do que seis montagens de seus textos vêm sendo preparadas.
A explicação para o fenômeno talvez esteja no fato de Chekhov ter vivido justamente num fim de século, como agora, e às vésperas da Revolução Russa. A imobilidade é a principal característica de seus personagens, perplexos diante da ruína de valores num mundo em profunda transformação. Qualquer semelhança com nosso fim de milênio...
Além de A Gaivota, vêm aí As Três Irmãs, Tio Vânia e Ivanov. Tio Vânia merecerá duas montagens: uma carioca, dirigida por Moacir Chaves, com Pedro Paulo Rangel, e outra paulistana, tendo Renato Borghi como protagonista. As atrizes Cláudia Abreu e Louise Cardoso estarão sob direção de Enrique Diaz em As Três Irmãs, texto que também será dirigido por José Possi Neto, com Betty Gofman e Ana Beatriz Nogueira no elenco.
O excelente grupo Tapa completa essa espécie de panorama espontâneo da obra do dramaturgo com uma belíssima encenação de Ivanov, como pôde comprovar quem assistiu à pré-estréia do espetáculo no fim do ano, no Centro Cultural Monte Azul.
BrechtEste é também o ano do centenário de nascimento do dramaturgo alemão Bertolt Brecht e montagens de suas peças certamente farão parte das comemorações programadas por todo o País. O Instituto Goethe e o Sesc são algumas das instituições que prometem vasta programação em torno de sua obra. Além das montagens patrocinadas por instituições, diretores planejam encenar Brecht, entre eles Ulysses Cruz, com O Círculo de Giz Caucasiano, e Domingos de Oliveira, com A Alma Boa de Setsuan.
A vitalidade de nossas companhias de repertório pode ser considerada outra marca do ano que se inicia. O grupo Tapa não se limita a Chekhov e apresenta ainda um panorama Vianinha, com três peças do autor. Trabalhos como O Avarento, de Moliere, do grupo Ornitorrinco, dirigido por Cacá Rosset, que terá apresentações grátis no Sesi, ou IEP, de Luís Alberto de Abreu, com a Cia. de Artes e Malasartes, certamente comprovarão a maturidade de nossas companhias, além de propiciar bom divertimento, é claro.
E sempre vale atentar para o trabalho de nossos grandes diretores. Antunes Filho ensaia nova peça, mas faz segredo da temática. Não importa. Em se tratando de Antunes, trajetória e talento são garantia de bom espetáculo. O inquieto Zé Celso, entre outros projetos, encena texto de sua autoria sobre Cacilda Becker e Gabriel Villela prepara O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, além de manter em cartaz o belíssimo Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.
Gilberto Grawronski trará a São Paulo o inquietante espetáculo Na Solidão dos Campos de Algodão, de Koltes. No quesito polêmica, será um ano sem Gerald Thomas, que monta O Balcão, de Jean Genet, no La Mamma de Nova York e planeja não voltar ao Brasil, e com Ruth Escobar, que promete trazer o melhor do teatro oriental para o Festival Internacional de Teatro deste ano. E há mais, muito mais. Preparem a voz para o grito de bravo.


