Arquivo FolhaBecos e vielas de muitas igrejas também fazem parte do roteiroO Centro do Rio é histórico. Poderia ser estórico também se esta pequena diferenciação não tivesse sido banida da língua portuguesa. E é justamente o encontro da história com a proscrita estória que traz encanto para uma modalidade de turismo barata: as caminhadas a pé pelo Centro do Rio, que, nos fins de semana, livre dos engarrafamentos e burburinho dos dias comerciais, ganham o perfeito ar nostágico para a aventura.
‘‘A história do Rio é tão fantástica, que, contando, ninguém acredita’’, garante Milton Teixeira. Em oito anos, o historiador e professor de turismo calcula ter percorrido 800 quilômetros do Rio, mostrando prédios históricos e contando as muitas histórias da cidade. ‘‘Dava para ter ido até São Paulo e, a essa altura, já estaria quase chegando novamente ao Rio’’, brinca.
Teixeira, que trabalha com 20 agências de turismo, diz que a caminhada campeã de preferência é a que ele batizou com Tour dos Centros Culturais. O passeio começa no Paço Imperial, antiga sede do governo português e hoje Centro Cultural, na Praça XV, passa através do Arco do Teles, percorre as vielas e becos de muitas igrejas que levam até a Rua Visconde de Itaboraí, onde estão localizados atuantes centros culturais, como o do Banco do Brasil e a Casa França-Brasil, atravessando, assim, quatro séculos de história.
Tão encantador quanto ver o conjunto arquitetônico preservado, graças à criação do Corredor Cultural, projeto municipal que isenta do pagamento do pesado IPTU os proprietários dos imóveis conservados, é ouvir as muitas histórias e causos que cercam as construções. Foi na casa número 13 do Arco do Teles, por exemplo, que morou Carmem Miranda. Mas duas outras histórias dão um sabor especial ao local, hoje uma sequência de bares, que promovem a mais concorrida happy hour do Centro.
Bruxa Diz-se que, no século 17, morou no Arco do Teles uma bruxa chamada Bárbara dos Prazeres, que fazia porções da eterna juventude, cujo principal ingrediente era o sangue de escravos. O destino de Bárbara perdeu-se nos descaminhos dos registros históricos, mas Teixeira garante a veracidade da história. ‘‘Tenho documentos que comprovam a existência de Bárbara’’.
Para os devotos de São Tomé, vale lembrar um acontecimento recente que assustou os operários que trabalhavam nas obras do Rio Cidade na Praça XV. Perfurando o subsolo, eles encontraram várias ossadas humanas bem em frente ao Arco do Teles. Teixeira abre um sorriso de satisfação: ‘‘Vai ver que eram as vítimas de Bárbara.’’
No Arco do Teles, funcionou também no século 17, a Taberna da Maricota Corneta. Foi neste local, em meio a um quebra-quebra fenomenal promovido por D. Pedro I, ofendido por ter sido confundido com um paulista, que o imperador conheceu Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, na época amante da taberneira, e que viria a se tornar a eminência parda mais importante do Império.
No meio da caminhada, cruza-se também com a Rua da Quitanda, onde o guia conta uma história médico-satírica. No século 18, a rua tinha outro nome: Sucussarará. Nela morava um médico alemão especializado no tratamento de hemorróidas, que, em seu tosco português, repetia aos pacientes: ‘‘Sucusararᒒ. Em 1823, as autoridades locais, revoltadas com a origem chula do nome do logradouro, decidiram rebatizá-lo.
Três horas Iniciativas como a de Teixeira, que cobra em média R$ 50,00 para passear e contar histórias a um grupo máximo de 50 pessoas durante três horas, são isoladas, como reconhece Augusto Ivan, sub-prefeito do Centro. ‘‘Nunca houve um plano estruturado’’, afirma. ‘‘O que vem acontecendo são iniciativas isoladas de pessoas que gostam de pesquisar a história do Rio.’’ Na verdade, programas turísticos de caminhada chegaram a estar nos planos da Riotur, que criou e, em seguida desativou o projeto Conheça o Rio à Pé.
Ivan sustenta que a criação do Corredor Cultural, que isenta de IPTU 1,6 mil imóveis do Centro, foi fundamental para a redescoberta e para a proliferação de centros culturais na região. ‘‘O Corredor Cultural começou a colocar na cabeça do carioca a necessidade de preservar a memória da cidade.’’

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