São Paulo, 19 (AE) - Há mais de 40 anos que não ocorria um evento desse porte no País. O 3.º Congresso do Cinema Brasileiro, que será realizado em Porto Alegre, de 28 de junho a 1.º de julho, promete ser o foro para a discussão dos grandes problemas que assolam a cinematografia nacional. O presidente do congresso é o cineasta Gustavo Dahl, de "O Bravo Guerreiro" e "Uirá", ex-presidente do Conselho Nacional de Cinema, o Concine, e superintendente de comercialização da Empresa Brasileira de Filmes S.A., Embrafilme.
Ele lembra que os dois congressos anteriores ocorreram na transição dos anos 40 e 50. Há muito para discutir, agora. Destaca a iniciativa da Fundacine, a Fundação de Cinema do Rio Grande do Sul. A entidade gaúcha, ligada à Secretaria Estadual de Cultura, abriga organismos oficiais e representantes da indústria privada, todos voltados para o fomento da atividade cinematográfica no Estado. A Fundacine já havia encaminhado ao secretário do Audiovisual, José álvaro Moisés, a proposta para uma ampla discussão sobre os rumos atuais e futuros do cinema no País.
No 31.º Festival de Brasília, os cineastas Gustavo Dahl e Alberto Sevá também formalizaram a proposta de uma discussão ampla para dar sequência à idéia do seminário "Cinema Brasileiro: Mercado ou Estado", que organizaram. Outras propostas do gênero pipocaram no Brasil inteiro. "O mérito da Fundacine foi ter sido sensível a todo esse movimento, encampando as propostas", diz Dahl. Está surgindo assim o 3.º Congresso do Cinema Brasileiros. Cerca de 30 entidades, representando cineastas, produtores, artistas, técnicos, distribuidores e exibidores enviarão seus delegados à capital gaúcha. Dahl informa que a pauta do congresso ainda está sendo definida, bem como os painéis e mesas que vão integrar a programação. Cabe a ele, como presidente, definir e estabelecer a proposta da parte conceitual do evento. Dahl lembra que as duas edições anteriores do evento lançaram as bases do moderno cinema brasileiro. "Desempenharam um papel histórico fundamental na consolidação de nossa identidade cultural". Cita números: como consequência dessas iniciativas, o cinema brasileiro chegou a deter mais de 30% do mercado interno nos anos 80, produzindo sucessos de bilheteria que nunca mais foram igualados.
O começo dos anos 90, com a política de devastação do governo Collor, foram marcados por grandes dificuldades, quando quase deixou de existir o cinema de longa-metragem no País - inúmeros cinemas fecharam as portas, produzindo desemprego e recessão no setor -, seguindo-se a chamada retomada. Verifica-se uma progressiva recuperação do mercado, mesmo que ainda seja modesta em relação ao boom dos anos 80. São fatores positivos, mas Dahl enfatiza: "Não podem obscurecer uma realidade que, se é rica em diversidade, também é marcada por enormes contradições".
Muitos são os problemas, alguns já históricos. Outros foram agravados com o aparecimento de novas mídias e tecnologias. A exibição tem sido ameaçada com a chegada de investidores internacionais. A produção, estimulada pelo investimento estatal, via incentivo fiscal, apresenta períodos de sazonalidade. Agora mesmo, o período é recessivo: poucas empresas investem no cinema brasileiro. "Denúncias de corrupção
a acusação do secretário do audiovisual, que nos chamou de vagabundos e disse que somos incompetentes como empresários, tudo isso precisa ser revisto e discutido", diz Dahl.
Com a extinção da Embrafilme e, principalmente, do Concine, o cinema brasileiro ficou sem um foro para a discussão de seus problemas. O 3.º Congresso será esse foro. "O cinema possui diversas vertentes - artística, cultural, industrial; integra a indústria do audiovisual, mas não se confunde com a produção e apresentação da TV", ressalta. "É preciso repensar tudo; estabelecer metas, programas". A pauta ainda não foi definida, mas está rica em propostas: discutir o poder público (legislação, renúncia fiscal, remessa de lucros, etc.), a questão econômica, subdividida em mercado audiovisual, produção, distribuição, exibição e mercado externo, sem esquecer a contextualização cultural.
A pauta não pára por aí: "Queremos discutir cinema e sociedade, a auto-sustentabilidade da produção, a formação de público". Ainda na enumeração dos motivos que justificam a realização do congresso, Dahl faz uma afirmação das mais relevantes: "Oitava economia do mundo, o Brasil não pode permitir-se o subdesenvolvimento cinematográfico". Pois essa, além de artística e cultural, é também uma questão de Estado, estratégica. "Os embates do século 21 se darão nos choques de culturas e de valores, de imposição de mentalidades e padrões de consumo". Sua conclusão é que o País não pode perder essa guerra, assumindo o subdesenvolvimento do cinema.

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