A tela, em branco, representa o conflito de um artista plástico. Em determinado momento, o processo de criação simplesmente estancou. Desde então desapareceram a inspiração, a técnica e o talento. O trabalho ficou estagnado, para desespero da marchand que, entre a exigência da demanda e a impossibilidade da produção, resolveu contratar uma garota para despertar os interesses do pintor.
‘‘A Lua é Minha’’, espetáculo que estréia hoje no Zaqueu de Melo, fala dos dramas de um criador quando o talento se ausenta. A direção e o texto são de Mário Bortolotto, e o elenco traz Christine Vianna, Aline Abovsky e Everton Bototti - prêmio de melhor ator coadjuvante no Mambembe de 1997.
Produzido na primeira metade da década de 90, o texto se diferencia um pouco dos últimos trabalhos de Bortolotto, que usam mais a metáfora. ‘‘A Lua é Minha’’ é um espetáculo direto, sem sentidos ocultos ou artifícios incompreensíveis.
A peça seria montada em Francisco Beltrão, mas a idéia não deu certo e o texto permaneceu inédito até que Christine Vianna resolveu encampar a produção, inscrevendo-a no Projeto Nacional de Artes Cênicas. Com a aprovação do projeto, a montagem ganhou financiamento parcial do Fundo Nacional da Cultura, do Ministério da Cultura, e patrocínio da Caixa Econômica Federal.
‘‘Trata-se de um problema de criação que pode ocorrer com qualquer artista. Tem hora que dá um branco, aí atrapalha toda a sua vida, ele pára de se relacionar com as pessoas. Na peça, a marchand fica louca e contrata uma modelo para posar para o pintor e despertá-lo em todos os sentidos’’, comenta o autor, que está em Londrina para o lançamento do espetáculo.
A estréia também segue uma linha mais intimista, voltada para conflitos pessoais. ‘‘É uma peça simples, sem metáforas, mas difícil de ser encenada. Tem que ser um trabalho que não caia no moralismo. Os atores e o público têm que dar e receber de uma maneira inteligente’’, acentua Bortolotto.
Por esse motivo, a encenação foi elaborada para que os atores ganhassem destaque, enquanto o cenário, simplificado, é resumido aos elementos de um ateliê: quadros, tintas, pincéis e uma tela em branco, resultado da impotência do artista.
Pelo segundo ano consecutivo, Mário Bortolotto concorre ao Prêmio Shell de Melhor Autor com a peça ‘‘Diário das Crianças do Velho Quarteirão’’. A segunda indicação aumentou as expectativas do dramaturgo. ‘‘Dá vontade de ganhar. Em março sai o resultado. Se não ganhar tudo bem, mas é frustrante ser indicado e não receber o prêmio’’, completa.
Entre os projetos que o escritor vem desenvolvendo, está o CD gravado junto com a banda Keds, em Londrina, que será lançado em abril. O disco reúne composições de Bortolotto, que também atua nos vocais. Voltado para o rock, o trabalho conta com várias participações especiais, entre elas Neuza Pinheiro e a banda Cherry Bomb.
Após o Carnaval, Mário Bortolotto vai protagonizar, no Centro Cultural de São Paulo, o espetáculo ‘‘Disk-Ofensa - Linha Vermelha’’, de Pedro Vicente, com direção de Nilton Bicudo e um elenco que reúne Leona Cavalli, Tata Amaral, Regina França e Francisco Campos. ‘‘Aceitei o trabalho porque se trata de um dos autores da nova geração que mais gosto. A peça fala de um escritor em crise que elabora uma linha telefônica para as pessoas serem ofendidas. Ele começa então a roubar os palavrões de uma mendiga que sabe xingar muito bem’’, comenta.
Com o grupo Cemitério de Automóveis, Bortolotto está preparando ‘‘Getsemani’’, o terceiro espetáculo de uma trilogia englobando violência, solidão e morte. A peça retrata o Horto das Oliveiras, onde Cristo foi rezar pouco antes de ser preso. Se sobrar tempo, o autor ainda pretende remontar ‘‘À Queima Roupa’’ e ‘‘O Cara que Dançou Comigo’’, além de levar três espetáculos ao Rio de Janeiro: ‘‘A Lua é Minha’’, ‘‘Diário das Crianças do Velho Quarteirão’’ e ‘‘Rolex - O Antivelox’’.
A estréia de ‘‘A Lua é Minha’’ começa às 21 horas, e os ingressos antecipados custam R$ 7,00 - na hora do espetáculo sobem para R$ 10,00. Estudantes, funcionários e clientes da Caixa Econômica têm 50% de desconto. As reservas podem ser feitas pelo telefone (043) 322-3280. O Zaqueu de Melo fica na Avenida Rio de Janeiro, 113, em Londrina. O espetáculo fica em cartaz até domingo.Norberto Avelaneda/Divulgação‘‘A Lua é Minha’’: um espetáculo direto, sem sentidos ocultosRanulfo Pedreiro

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