Conflito entre coronéis e o governo de Goiás é o pano de fundo de "O Tronco"
São Paulo, 30 (AE) - João Batista de Andrade quis fazer do seu 11.º longa-metragem um filme de aventuras com pano de fundo político. É uma maneira modesta, embora correta, de anunciar "O Tronco", adaptado do romance homônimo do goiano Bernardo Élis. A história é fictícia, mas baseada em fatos reais. Fala do conflito entre coronéis e o governo de Goiás, ocorrido no fim da década de 10. O diretor acredita, piamente, que o fato não se limita em tempo ou espaço à Goiás da Primeira República. Pelo contrário, serviria como modelo crível da arquitetura social brasileira existente até hoje.
Na história, o coronel Pedro Melo (Rolando Boldrin) e seus filhos matam um pequeno fazendeiro para tomar-lhe as terras e a casa. Entram em atrito com o coletor de impostos Vicente (¶ngelo Antônio), representante do governo no lugarejo. Acontece que Vicente é aparentando dos Melos e, ainda por cima, apaixonado por Anastácia (Letícia Sabatella), casada com um deles. Vicente fica dividido, mas acha que precisa levar a justiça para o local. Para isso, precisa pedir ajuda a um homem forte do governo e esta vem na figura do maquiavélico juiz Carvalho (Antônio Fagundes). Este arma um pequeno exército e vai enfrentar os jagunços dos coronéis. Acabará por provocar uma tragédia.
O filme fala de muitas coisas. Começa sendo uma ilustração de como nem sempre as boas intenções funcionam, sobretudo em matéria de política. ¶ngelo acredita piamente que precisa levar a lei ao sertão e que isso será bom para todos. O resultado de sua ação o levará para longe do objetivo inicial. Fagundes, numa caracterização do juiz Carvalho que lembra a do personagem de Marlon Brando em "Queimada", de Gillo Pontecorvo
encarna a Realpolitik versão sertaneja. Não vê ética na ação. Faz o que mandam seus superiores e isso lhe basta.
A ele se junta outra figura notável, o militar Catulino, vivido por Chico Diaz, inspirado como sempre. Catulino é a força bruta, que se associa ao governo e lhe dá a consistência armada. O poder sem a espada é apenas conversa fiada, na tradução aproximativa dada à frase de Hobbes no Leviatã. Catulino é a espada. Carvalho, o cérebro, e Vicente, um bobo alegre de boa alma, que põe tudo a perder quando quer salvar aos outros e a sua alma. No entanto, tudo isso é matizado no filme. O que seria do mundo sem pessoas como Vicente, por desastradas que pareçam? Batista trabalha com algumas metáforas. Uma delas é poderosa. No começo, vê-se uma tartaruga, caminhando com lentidão típica. Depois, o animal aparece virado de pernas para cima, sem poder andar. Pode morrer se ficar assim. Vicente a recoloca em posição normal. A cena é repetida, no meio do filme, e ainda uma vez, no final. Como se o cineasta quisesse assinalar que a marcha da História é vagarosa e que, paradoxalmente, são as pessoas de boa-fé que garantem essa marcha. É uma visão da coisa. Um fio de esperança em um filme quase todo marcado pelo tom pessimista.
"O Tronco" é muito representativo de um momento político mundial, em que as utopias de esquerda foram arquivadas e tudo parece acertar-se com a administração das coisas e dos negócios. O pesadelo neoliberal, que não poderia deixar de atingir um artista escolado em antigas lutas de esquerda, parece expressar-se nessa história só aparentemente datada de coronéis goianos. Outros símbolos - A força das coisas, a inércia da política, o poder econômico expressam-se em outros termos simbólicos. A começar pelo próprio título. "O Tronco" refere-se ao instrumento de tortura usado para prender os escravos pelos pés. Ele é utilizado contra os Melos, quando são tomados como reféns pelos soldados, e aprisionados no porão da casa, com os pés presos. Mas há também o tronco de uma árvore solitária, junto à qual o jovem Pedro Melo jurara construir seu império. E ao lado da qual vai morrer assassinado.
Há outro momento antológico quando Catulino, na sede devastada da fazenda, encontra uma estatueta representando a Justiça quebrada em três pedaços. Ele, prestes a ordenar o massacre, a reconstrói, por um momento, empilhando pedaço sobre pedaço. Uma imagem de muita força. Aliás, João Batista procurou sistematicamente imprimir intensidade visual a esse novo filme, tentando talvez com isso estabelecer distância entre o anterior, o despojado (em vários sentidos) "O Cego Que Gritava Luz". Fez seu elenco trabalhar contra um cenário de grande credibilidade, montado no interior goiano.
Construiu uma cidade cenográfica próxima de Pirenópolis (onde o filme será exibido no dia 7) e escalou um craque da fotografia, Jacques Cheuiche, para conseguir o colorido ocre, da terra, do chão batido, da poeira vista contra o sol. A música, do mineiro Tavinho Moura, também procura sublinhar o aspecto "rústico" daquilo que é narrado. No entanto, "O Tronco" não se alinha na vertente regionalista, naquilo que ela possa ter de mais restrito. Trabalha na linha imaginária entre o local e o universal. Não apenas porque fala das raízes de um País que ainda não se encontrou, mas porque trata de algumas das grandes paixões humanas, como a luta pelo poder e a mesquinharia de quem normalmente a vence.
Enfim, porque toca no cerne de um problema universal. Na luta entre os grandes, são os pequenos que levam a pior, porque confundem os seus interesses com os deles. Isso tanto hoje quanto na República Velha. (L.Z.O.)





