Confissões biográficas
Confira alguns trechos da entrevista que Milton Nascimento concedeu a Márcio Borges. O bate-papo, bem como uma breve biografia e as letras de música dos CDs, foi publicado no livreto ‘‘Milton Nascimento – Sua vida, sua música’’.
Eu tinha um problema com esse (nome) Milton Nascimento que eu nem sei explicar de onde veio e nem por quê. É uma coisa interessante... Hoje, por exemplo, quando eu vou pra algum lugar, na rua, se alguém me chama de Milton, até me sinto, assim, apto a olhar para a pessoa, e coisa, mas se me chama de Milton Nascimento... É um peso tão grande.
Minha mãe de sangue trabalhava na casa da minha madrinha que era mãe da minha mãe adotiva. Então, mesmo antes de ir pra Três Pontas, com dois anos ou lá o que seja, eu e minha mãe Lília nos adotamos. Era a pessoa que mais amava nesta vida. Desde que eu era pequenininho, eu só queria saber dela... e ela só sabia de mim...
...Agora, lembro também de uma época mais pra trás quando minha mãe de sangue ainda estava com meu pai de sangue também, e eu lembro de brigas deles. E eu lembro que uma vez atirei uma... uma... escova de dentes nesse meu pai.
Os meus colegas, né, Caetano, Gil, Chico Buarque, Geraldo Vandré e coisa, as pessoas foram saindo do Brasil. Então teve um negócio aqui que aconteceu, que a crítica era muito... má, maliciosa comigo, né? Ajuntou muita coisa pra cima de mim, que os olhos estavam voltados pra mim. Enquanto isso, fomos trabalhando com os estudantes. Agora, ao mesmo tempo era uma coisa, assim, de amor ao meu País, e me solidarizar com os estudantes, eu tive problemas, você sabe. Problema de censura nos discos como o ‘Milagre dos Peixes’, que foi quase todo censurado. A Odeon (gravadora) queria que eu fizesse outro disco, eu falei: ‘Não, vai sair desse jeito’, usando a voz como instrumento e como arma. E olha que tentaram censurar também a voz.
(...) A todo lugar, antes, que eu ia, o pessoal perguntava: ‘Qual é o estilo da tua música? Eu nunca soube que estilo era. Era samba? Era mas não era. Era jazz? Era mas não era. Era rock? Era mas não era. Aí quando fui pela primeira vez à Dinamarca, tinha lá o cartaz do festival de jazz, não sei quê; então tinha lá, por exemplo: Miles Davis, jazz; Fulano de Tal, rhythm and blues; e Milton Nascimento, Milton.’
Tem duas músicas brasileiras. A que as pessoas fazem como aquilo que acreditam, e aí tem muita gente boa, e tem a de consumo imediato que, aliás, não é só no Brasil não, é no mundo todo. E tira-se pouca coisa realmente boa. Por exemplo, o negócio das gravadoras. Antes vinha escrito no disco: ‘Disco é Cultura’. Hoje isso não existe mais. Então, tinham os caras que vendiam porque vendiam, e aí as gravadoras aproveitavam o que ganhavam pra investir nas pessoas que não vendiam tanto mas tinham importância como artistas. E hoje isso nem existe mais.
O ser humano é o principal objeto de todas as nossas lutas, né? Eu sou apaixonado pelo ser humano. Pode ter uma paisagem na minha frente que, se tiver na minha frente, eu olho pra pessoa.

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