Confira este projeto
Wilmar Klein
De Curitiba
Especial para a Folha2
Acontece, amanhã e sábado, às 20h30, no auditório Antônio Carlos Kraide do Centro Cultural Portão, em Curitiba, o show de estréia do projeto musical Wandula, que estará mostrando composições de seu primeiro CD, com lançamento previsto para outubro. Formado por Marcelo Torrone - paisagista sonoro conhecido por seu trabalho solo para piano, envolvendo elementos da música impressionista do início do século e do minimalismo abstrato da década
de 50 -, Cláudio Pimentel - líder da banda Plêiade (cujo primeiro disco, do qual Torrone também participou, saiu no ano passado) -, e Edith de Camargo - vocalista do grupo As Três Marias -, o Wandula une referências da música erudita, do pop e do experimentalismo, apresentando uma sonoridade peculiar, resultante de estruturas musicais bem elaboradas e de uma preocupação especial com a exploração de timbres e texturas.
No show - e no disco (do qual forneço abaixo uma prévia) -, Torrone comparece ao piano, no synth e no piano 26; Pimentel, ao violão, no vocal e nos ready tapes (ruídos e sons incidentais recolhidos com gravador portátil); e Edith, no acordeom, piano, vocal e piano de brinquedo. As letras das músicas, acima da média, são cantadas em português, inglês e francês. Um belo e criativo trabalho, que merece ser conhecido.
Em tempo: os shows no Centro Cultural Portão têm ingressos a R$ 6.
Confira este disco
Satie Pererê, o primeiro CD de Marcelo Torrone com o Wandula (e que também conta com a participação de Plínio Silva), é um disco assombrado pelo fantasma de Erik Satie (1866-1925), o autor do oratório Sócrates e do bailado Parade, e, mais especificamente, pela obra para piano de Satie. Tal influência verifica-se ao longo de todo o disco, notadamente em Rocambolesco, a faixa de abertura, que é quase um choro, porém um choro como Satie teria composto se tivesse conhecido o choro - uma faixa caracterizada por delicados e alegres arabescos pianísticos a cargo de
Marcelo -; bem como uma influência presente em composições como Conversation With a Stone e A Queda de Suzanne. Conversation, vale destacar, conta com criativas vocalizações de Edith e sua letra é construída um pouco à moda dos poemas fonéticos dadaístas (recurso encontrado pelo Wandula quando descobriu que nenhum de seus integrantes soaria convincente cantando em polonês, já que a peça é inspirada num poema de uma autora polonesa). Sobre a Mesa de um Fim de Século traz um belo dueto de piano e acordeom (Marcelo e Edith) e tem a delicadeza e a sutileza também presentes nas faixas Tenho os Olhos Abertos no Escuro e Noturno. Paisagem Progressiva nº 1 abre com o violão de Cláudio Pimentel e, ao contrário do que o nome sugere, tem uma vocação para ambient music. Outros dois grandes momentos são LHomme aux Tâches de Rousseur, deliciosamente retrô, fazendo lembrar um pouco as composições nostálgicas de J.-M. Zelwer, e Seresta, releitura do tema homônimo de José Gramani e Ana Salvagni.
Como Satie Pererê ainda não está pronto - o lançamento, como disse, deverá acontecer em outubro - faço os comentários com base num demo tape. Porém, mesmo considerando que algumas das faixas ainda receberão instrumentos e ruídos adicionais e falta gravar quatro músicas, dá para ter certeza de que será um disco magnífico, cheio de excelentes idéias musicais, delicadeza, refinamento - música que, infelizmente, por aqui pouca gente faz.
Não confira esta festa
E então a MTV exibe hoje, às 22 horas, a premiação do VMB. A sigla é de Video Music Brasil, mas, levando em conta o que o telespectador vai ver (ou melhor, vai rever, pela enésima vez), bem poderia ser a de Vai Mal, Brasil, ou de Vitoriosa Mediocridade Brasileira, ou a de Vá à ... deixa pra lá. Se ainda fosse para premiar clipes apenas por suas qualidades técnicas e artísticas, independentemente da música, então a premiação até mereceria atenção. Porém a maioria das categorias não privilegia tais aspectos; tudo é um jogo de cartas marcadas onde, qualquer que seja o resultado, serão favorecidos os interesses da indústria fonográfica, massificadora, homogeneizadora do gosto popular em segmentos bem definidos e medíocres, e, é claro, respaldado pelo mote do evento - A Cara do Brasil -, será favorecido o empenho da Emetevê em baixar a qualidade artística das suas atrações em favor do crescimento da audiência. Estou bem certo de que este meu comentário é quase inútil, pois a maioria do público exultará em rever brasilidades descartáveis - em geral, ensolaradas - produzidas para coisas muito rentáveis como Banda Eva, É o Tchan, Cheiro de Amor, Exaltasamba, Karametade, Leonardo et cetera. Quem diria que um dia você poderia ver tudo isso na MTV!
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