Confira dois brasileiros de propostas diferentes
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segunda-feira, 25 de outubro de 1999
por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 26 (AE) - Dois filmes brasileiros são as atrações de quarta-feira da Mostra de Cinema. "No Coração dos Deuses", de Geraldo Moraes (Cinesesc, 14 h), e Cine Mambembe - o "Cinema Descobre o Brasil", de Laís Bodansky e Luiz Bolognesi (Estação Vitrine, 18h15), têm pressupostos e públicos diferentes. O primeiro destina-se à platéia infanto-juvenil, um tanto quanto esquecida pelo cinema nacional da atual safra. O segundo é testemunho de um ato de amor. Registra a viagem dos dois diretores, que saíram pelos grotões do País mostrando filmes a quem nunca tinha participado antes de uma experiência estética tão prosaica quanto corriqueira para quem mora na cidade.
A história de "No Coração dos Deuses" é a de um grupo de aventureiros à procura de um tesouro, guiados por um antigo mapa do século 17. No meio do caminho, acabam caindo num desses desvãos do tempo, comuns em filmes de ficção científica, e vão parar no século dos bandeirantes. O longa é estrelado por Antonio Fagundes, que interpreta dois papéis, o aventureiro do século 20 e o bandeirante Fernão Dias. Além de Fagundes, fazem parte do elenco Roberto Bonfim, Malu Moraes, Denise Milfont, Hugo Rodas, entre outros.
"No Coração dos Deuses" contenta-se em ser apenas uma boa história de aventura. Por isso, não inventa nem busca soluções que atrapalhem o diálogo com seu público-alvo. Não se pode dizer que a trama proposta pelo roteiro saia daquilo que habitualmente se encontra no gênero: um grupo heterogêneo (um antiquário, um falsário, um garotão e seu tio, etc.) enfrenta um bando de índios ferozes, desbravadores rudes e pouco chegados a gentilezas, etc. Há nele um tanto de Indiana Jones, mas em ritmo mais lento. Enfim, é apenas um filme de produção caprichada, destinado ao grande público - cabendo a ele, público, dizer a palavra final, ou seja, se a proposta se realiza na prática ou não.
"Cine Mambembe" nasceu de uma idéia dos cineastas Laís Bodansky e Luiz Bolognesi. Os dois são curtas-metragistas e conhecem na pele as dificuldades de exibição do filme brasileiro
em geral, e do curta-metragem, em particular. Tiveram um insight tão simples quanto ousado. Já que certas platéias não podiam ir ao cinema para ver filmes, os filmes poderiam ir até as pessoas.
Selecionaram alguns curtas, muniram-se de um projetor de 16mm, uma tela, um equipamento de som e um gerador. Colocaram tudo no carro e botaram o pé na estrada. Percorreram quase 15 mil quilômetros de estradas nem tão bem conservadas assim. Saíram de São Paulo, entraram pelo sul da Bahia, foram à Chapada Diamantina, acompanharam o Rio São Francisco, visitaram Alagoas, Pernambuco, Piauí, Maranhão, Tocantins e terminaram a odisséia na Amazônia.
Passaram por lugares que nunca tinham visto luz elétrica
quanto mais uma sessão de cinema. Projetaram filmes para índios pataxós e craôs. Tiveram outra feliz idéia: a de ir registrando a reação das pessoas diante de uma tela de cinema preenchida com imagens que não conheciam ou com as quais não estavam familiarizados. Resultado: foram divulgar uma arte e descobriram um País, esse Brasil dos cafundós, que não existe nas estatísticas ou nos discursos oficiais. Com o filme, partilham a experiência conosco.


