Um dos maiores nomes da história de nosso cinema é o do mineiro Humberto Mauro (1897-1983). Além de cineasta, foi escritor, acadêmico, músico, ator, produtor, pintor, artista plástico, político, crítico, roteirista e ativista, sendo um dos pioneiros do cinema no Brasil. Mauro também é chamado o “pai da linguagem cinematográfica brasileira”, devido não apenas ao seu pioneirismo, mas à sua singular maneira de filmar, ao utilizar poucos recursos (em seus tempos em Cataguazes) e, sobretudo, o seu olhar atento e apaixonado à paisagem nacional em harmonia com a presença humana.

Assistindo a “O Agente Secreto”, a estreia brasileira, em mais de 700 salas, da última quinta-feira (6), ao mesmo tempo em que me envolvia com a narrativa da trama, fui recobrando trechos importantes de minha memória cinéfila nos tempos da FAAP, início da década de 1970, quando fazíamos exaustivos mas prazerosos mergulhos na filmografia de Mauro, cerca de 30 títulos, entre longas e curtas metragens. E melhor e mais importante: durante a projeçãofui, cada vez mais, encaixando o significado da definição cunhada por ele, a de que “cinema é cachoeira”; explicitando, a cachoeira, assim como o cinema, está em constante movimento e fluxo, e deve ser belo, assim como uma queda d’água e deve ter dinamismo, uma continuidade infinita. Assim como uma espécie de eterno retorno.

Com ‘O Agente Secreto”, Kleber alarga cada vez mais seus horizontes. É ambiciosamente autoral e sua 'mise en scène' e seu estilo visual estão em busca constante e trabalham ininterruptamente pela conciliação de elementos de gêneros diversos com o thriller policial e de suspense, com direito à súbita hilaridade via horror trash.

AS FERIDAS DA DITADURA

A sombra da ditadura militar brasileira, suas feridas e cicatrizes, o racismo e a violência convergem para um enfoque inteligente de questões sociais e políticas complexas. E isto em modo de estrutura não linear, com transições temporais com capacidade imergir na época e no intrincado do contexto histórico. O elenco é outra gema preciosa. Não apenas Wagner Moura merece a aclamação por criar um personagem impressionante e empático em duas horas e quarenta, mas os demais entregam a ele, Kleber, o melhor de cada um. E que refinamento, nessa entrega multicultural e multirracial!

Não poderia faltar a criação de uma atmosfera única e vibrante no culto ao cinema materializado nas referências explícitas a “Tubarão” e filmes italianos de terror dos anos 1970. E no culto ao espaço físico da sala-fetiche de Kleber, que é o São Luís , um dos retratos fantasmas ressuscitado nas veias abertas do coração do Recife.

"ASSALTO À BRASILEIRA" ESTREIA EM 2026

Apesar das sessões especiais em Londrina em fins de outubro no Cine Villa Rica, em pré-estreias na programação especial do 27º Festival Kinoarte de Cinema, o lançamento do filme "Assalto à Brasiliera" na cidade (e por extensão no circuito nacional) só deverá ocorrer até o final do primeiro trimestre de 2026, como informou à FOLHA o produtor do longa-metragem, Marcelo Braga.

Assim, o grande público ainda vai ter que esperar mais algum tempo para se reconhecer na telona como testemunha presencial (vale a redundância) de um espetáculo que no cinema oscila entre a tragicomédia (ou dramédia, ou chanchada) o thriller policial variante assalto a banco, a aventura criminal com acenos ou apelos ao comentário social e o célebre “baseado em fatos reais” – aqui bordado com várias licenças poéticas. Ou ficcionalizadas.

Murilo Benício em "Assalto à Brasiliera": filme sobre um fato real traz uma polícia inoperante e um negociador improvisado
Murilo Benício em "Assalto à Brasiliera": filme sobre um fato real traz uma polícia inoperante e um negociador improvisado | Foto: Stella de Carvalho/ Divulgação

UM GOLPE BIZARRO

Deixando de lado o processo preparatório (porque não existiu o lendário planejamento) de qualquer grande roubo a banco que se preze, na ficção ou na realidade, o roteiro do veterano L. G. Bayão segue à risca o amadorismo absoluto do bando. Isto é, vamos logo aos finalmente, em nome do amadorismo. Foi assim, naquele 10 de dezembro de 1987, que ocorreu o mais estapafúrdio assalto a um banco brasileiro, vale dizer, ao Banco do Estado do Paraná, vulgo Banestado, quando o meliante Moreno e sua quadrilha realizaram o mais bizarro e implausível golpe criminoso de que se tem notícia nesse país.

A dinâmica da novela é aquela mambembe amplamente conhecida por todos: os assaltantes bem armados, os clientes do banco de repente reféns, a polícia inoperante e despreparada e sem qualquer providência de resistência, e um negociador improvisado, repórter policial que se transforma em ponte buscando o entendimento entre as partes.

Esses elementos, em termos de construção de dramaturgia, criam o tom de farsa que “Assalto Brasileira” mantém enquanto filme.

Deliberada ou não, há uma recusa no filme de José Eduardo Belmonte em dar maior textura psicológica aos principais personagens envolvidos na trama. Eles não são desenvolvidos para além da caricatura ou do verniz de suas personalidades. Após apresentados ao espectador, são mais ou menos abandonados e ficam à deriva. O repórter Paulo vivido por Murilo Benício (o Paulo Ubiratan da Folha de Londrina), o líder Moreno (Christian Malheiros) e o policial militar (Paulo Miklos) são premiados com uma fatia mais substancial de humanidade, ainda que ela se apoie mais no humor no que no absurdo da situação.

O momento histórico, logo depois da ditadura militar nos anos 1960, 70 e meados de 80, ganha ecos com um meio discurso de protesto do líder Moreno. Tempos de inflação e descredito da população. “Assalto à Brasileira” trava uma insana batalha consigo mesmo, passando dos risos iniciais ao drama meio tosco. Não chega a convencer, mas também não compromete inteiramente: é filme com bom ritmo a que se assiste com algum prazer e alguns sustos. Especialmente os londrinenses, que em muitos momentos se reconhecem e reconhecem os cenários onde a ação se desenrola.


Confira o podcast com os produtores do Filme "Assalto à Brasiliera":

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