Confira alguns trechos de "Mundo Novo"
"No lugar das casas de madeira que conheci antigamente, Londrina está cheia de prédios novos e os edifícios de cimento armado, de linhas modernas, crescem em vários pontos. A cidade tem todo o conforto, tem vida noturna com damas cariocas, argentinas e uruguaias, tem boate, pode chamar cantores internacionais que não vão a Curitiba e tem também uma das maiores criminalidades do mundo."
"Faço a barba e um barbeiro qualquer, de uma rua qualquer, e me cobram o preço do barbeiro do anexo do Copacabana Palace; sete cruzeiros, isto é, pelo menos dez,com a inevitável gorjeta. Assim é tudo. Esse hotel em que me instalo é propriedade de um médico vindo há alguns anos, sem um tostão no bolso, tentar a vida..."
"O atual delegado de polícia é um homem alto, pouco falante, de cara de nenhum amigo. Ele mesmo me diz que não pretende fazer amizades aqui; é um homem de posses, que veio para combater o crime e a corrupção. Está aqui apenas há dois meses e já fez uma bela safra de estelionatários. Conhece um certo número de espertalhões financeira e politicamente bem colocados e espera uma "chance" de prendê-los. Está 'limpando' a cidade antes que chegue a safra de café (esta safra será enorme, os gordos cafeeiros estão com uma carga soberba), quando os crimes se multiplicam. As maroteiras são feitas especialmente com conhecimentos de café, cheques sem fundo, venda de fazendas pertencentes a terceiros: golpes de centenas de contos, dados em poucos minutos, criando depois entre o 'otário' e terceiros, situações difíceis de resolver. Os lavradores japoneses são vítimas frequentes desses espertalhões. Recentemente apareceu um tipo original, que vendeu a dezenas de baianos, paulistas, mineiros, japoneses, polacos, etc., enormes, brilhantes e falsas condecorações do governo da... Bolívia. Os rudes desbravadores do Norte, enriquecidos em poucos anos, queriam enfeitar-se com medalhas."
"Alguns homens ricos tratam de morar e viver bem; a maioria entretanto, emprega dinheiro em novas terras e plantios, arma nova casa de pinho junto a uma nova floresta, continua a trabalhar furiosamente para ganhar dinheiro. A cidade é toda calçada, mas os caminhões e ônibus trazem para as ruas a lama e a poeira da fecunda terra roxa. A gente ensaboa e se lava duas, três vezes, e no fim a toalha ainda fica avermelhada."
"E Londrina, capital desse mundo novo, cresce com imponência, fica importantemente urbana, gasta seus montes de dinheiro com uísque, cimento e luxos; mas a poeira do trabalho ainda lhe dá um ar rude, o barulho dos caminhões carregados ainda lhe proíbe qualquer doçura - pois só a idade e a discreta indolência podem fazer a cidade dos homens abençoada pelo espírito, pela sabedoria e pela graça de viver."
R. B., 23-1-52





