''O que é arte nos dias de hoje?'' Buscar essa definição nunca foi tarefa fácil. Pior hoje com tantas influências da vida moderna, uma sociedade globalizada e repleta de novas tecnologias e linguagens.
Em 2007, muitas exposições, instalações e obras reacenderam esse questionamento. No início do ano passado, 16 cadáveres e 225 órgãos humanos, recortados e plastificados, foram expostos como estátuas hiper pós-modernas. A exposição ''Corpo Humano: Real e Fascinante'', do biólogo e professor americano Roy Glover, da Universidade de Michigan, foi vista por milhares de pessoas no Parque Ibirapuera em São Paulo e a pergunta: ''Isto é arte?'' voltou à tona.
Os rumos da arte contemporânea foram novamente questionados quando o Museu de Arte Moderna (MAM), de São Paulo, abriu em novembro a instalação ''Quebra-molas'' da carioca Débora Bolsoni, em que uma tonelada de massa de paçoquinha foi usada para reproduzir um redutor de velocidade de vias públicas. Outra instalação da mesma época, chamada ironicamente de 'arte hortifruti' foi ''Ainda Viva'', da paulista Laura Vinci, que espalhou sete mil maçãs sobre uma mesa de mármore branco e pelo chão da Galeria Nara Roesler, em São Paulo.
Instalações como essas são, no mínimo, intrigantes, causam polêmica e discussões entre críticos e artistas. Muitos questionam seu valor artístico, outros o defendem. Para o poeta e crítico Ferreira Gullar, alguns artistas contemporâneos cometem um grande equívoco quando imaginam que a pura expressão possa ser uma obra de arte. Segundo ele, ''uma mancha no chão, uma água escorrendo, tudo isso é expressão, mas não é arte, não tem técnica, não tem linguagem''. Já o curador Moacir dos Anjos pensa o contrário. Para ele, as questões provocadas no visitante pela mostra já são em si uma situação estética.
As 120 vaquinhas da ''Cow Parade'' de 100 artistas que passaram por Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro no ano passado também provocaram dúvida: ''Parada de vacas é arte?''. Com nove anos de existência, a exposição itinerante é considerada o maior evento de arte de rua do mundo. Passou por quase 40 metrópoles de vários países e foi vista por mais de um milhão de pessoas. Se levarmos em consideração o pensamento do pintor francês Georges Braque de que arte é feita para perturbar, podemos dizer que as vaquinhas, feitas de fibra de vidro e pintadas de forma original, instigaram muitas pessoas pelas ruas brasileiras, aproximando-as da arte.
As grandes e perfeitas esculturas do australiano Ron Mueck mostradas no Brooklyn Museum, em Nova York, no início de 2007, obtiveram grande sucesso de público e crítica. A reprodução do corpo humano feita com efeitos especiais cinematográficos impressionou. A riqueza nos detalhes, na composição da pele, cabelos, barba, rugas e veias de suas esculturas, colocou Mueck na lista dos artistas geniais. Nesses exemplares se vê a multiplicidade de técnicas usadas para se fazer arte nos dias de hoje.
A 20 edição da exposição de esculturas de gelo na China vem atraindo milhares de turistas do mundo todo, desde o final do ano passado. O festival é um dos maiores do mundo e ocupa uma área de 400 mil metros quadrados, além de utilizar 120 mil metros cúbicos de gelo e neve. Para ver as obras, visitantes enfrentam temperaturas abaixo de zero. Esta é mais uma demonstração de que não há limites. Qualquer matéria-prima pode ser transformada em arte.
Até a edição de 2007 do mais tradicional evento de artes do mundo, a Bienal de Veneza, abriu grande espaço para as novas mídias e linguagens, reduzindo os ambientes das artes tradicionais, como a escultura e a pintura. Com o tema ''Pense com os Sentidos, Sinta com o Pensamento - Arte no Tempo Presente'' deu destaque para as produções de videoarte e trabalhos com temáticas sociológicas e socioculturais, entre elas, feminismo, guerra, sustentabilidade, pobreza e abuso sexual.
Entre as obras apresentadas na Bienal, várias causaram polêmica. Entre elas, a individual da inglesa Tracy Emin com desenhos de órgãos sexuais masculinos; e a criação do iraquiano Adel Abidin de uma agência de viagens fictícia que leva pessoas de férias a Bagdá, mostrando a realidade de uma cidade destruída pela guerra por meio de audiovisuais e programas de computador. Entre as atrações mais impactantes, estava a dos jovens brasileiros do Grupo Morrinho, da favela do Pereirão de Laranjeiras, do Rio de Janeiro. Eles montaram réplicas em miniatura de pequenas favelas com tijolos em uma área de 300 metros quadrados. A reprodução da vida na favela que começou como uma brincadeira de garotos conquistou o público da Bienal.

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