"Confidências do Rio das Mortes" será exibido na TV Cultura
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domingo, 26 de setembro de 1999
por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 27 (AE) - Será uma sessão exclusiva para convidados, na terça às 21 horas no Espaço Unibanco de Cinema. Mas no dia 3, às 20 horas, "Confidências no Rio das Mortes", de Paschoal Samora, vai ao ar na TV Cultura. O filme já foi exibido no festival "É Tudo Verdade" e no Freiburg Film Forum da Alemanha, duas das mais respeitadas mostras de documentários do mundo. Em ambos recebeu a admiração do público e o respeito de especialistas.
Tudo começou quando Samora foi convidado para fazer um filme sobre Minas. Ele partiu numa viagem em busca de monumentos e documentos. Descobriu personagens. Em Tiradentes, na praça central, encontrou o oleiro Tião Paineiras, que lhe contou histórias enquanto trabalhava o barro. Em São Del Rey, nova descoberta: o garimpeiro e vendedor de doces José Maria dos Santos. E, ainda, d. Gabriela Andrada, descendente dos bandeirantes.
Samora começou a estruturar seu documentário nos depoimentos dessas pessoas. Assim nasceu Confidências no Rio das Mortes. Inicialmente, ele pensava num narrador para dar unidade ao filme. Optou pela tradição oral, resgatada pelos personagens reais que contam a história do Rio das Mortes. Por meio dos depoimentos, evoca a grande história - as lutas entre colonizadores, índios e escravos. O drama da escravidão é um dos assuntos mais recorrentes nos depoimentos.
Produzido pela Grifa Cinematográfica, a mesma empresa produtora de Três Chapadas e um Balão, de Maurício Dias, Confidências no Rio das Mortes viaja no tempo para dar um testemunho sobre o violento período da colonização do Brasil pelos bandeirantes. Um dos personagens conta como o rio teria ficado vermelho, tingido de sangue, durante a Guerra dos Emboabas, no começo do século 18. É uma das versões para o nome do rio. A outra é de que o nome teria surgido ainda antes, quando lá foram mortos os índios guacás e tupis.
O documentário de 52 minutos oferece um resgate precioso da história e das tradições culturais do interior de Minas. No pequeno Arraial do Rio das Mortes realiza-se todos os anos a festa de Nossa Senhora do Rosário. O ponto alto das comemorações é a congada. A festa mistura o sacro e o profano, pois as danças são marcadas pelo ritmo dos tambores. É uma tradição que veio da áfrica, reafirmando que o negro reagiu à escravidão por meio da cultura, do candomblé e das festas.
No Freiburg Film Forum, o filme despertou a atenção dos etnólogos. É um trabalho quase antropológico, delicadamente intimista ao tentar estabelecer a relação do homem simples do povo com seu passado. Samora destaca a importância dos personagens que enriqueceram a narrativa. "Eles possuem valores diferentes, que nos foram transmitidos durante o trabalho de uma forma muito rica e humana."
Embora embasadas na realidade, as histórias relatadas passam pelo filtro do imaginário de cada um. Não são pesquisadores falando. São pessoas que ouviram essas histórias, processaram-nas e agora as ampliam na perspectiva da experiência pessoal de cada um. O objetivo não é retratar a história do Brasil, mas dar voz ao povo. Nada de verdades absolutas. Apenas versões dos fatos com uma carga muito forte de emoção nos depoimentos.
O filme é uma produção de R$ 590 mil, que foram captados por meio da Lei Rouanet. Samora acaba de mostrar Confidências no Rio das Mortes na mostra de vídeo do Festival do Rio. O próximo passo é kinescopar, fazendo uma versão para cinema. Simultaneamente, ele trabalha num projeto de seis programas de 26 minutos cada sobre parques nacionais no Sul do País.


